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A passagem do tempo e o retorno a uma verdade simples e despojada - Aline Frazão em entrevista

Nascida em Luanda, Angola, Aline Frazão é cantora, compositora e cronista. Estudou em Lisboa, viveu em Barcelona e começou a levar a sério a carreira músical em 2010. Em 2011 surge o primeiro disco, "Clave Bantu", gravado em Espanha. Seguiram-se "Movimento", em 2013 e "Insular" em 2015.

O seu quarto álbum, "Dentro da Chuva", foi lançado a 21 de Setembro e foi gravado no Rio de Janeiro. Todo escrito em Luanda, cidade natal da cantora, marca o regresso às origens -  após 10 anos fora, Aline Frazão voltou a morar na capital angolana desde final de 2016. 

Aline Frazão esteve em Berlim pela primeira vez em Outubro de 2012, por ocasião do Festival Berlinda. O concerto no Lido Berlin, cuja primeira parte ficou ao cargo do cabo-verdiano Dino D´Santiago, trouxe ritmos quentes africanos combinados com influências de jazz e foi um sucesso. Ines Thomas Almeida, fundadora e anterior directora da Berlinda e do Festival Berlinda, lembra: “As pessoas adoraram, a bicha para os autógrafos era imensa, os CDs foram todos vendidos e os músicos conseguiram uma porta aberta para a Alemanha e a Europa.”

 

Seis anos volvidos e três novos álbuns, a cantora apresentará “Dentro da Chuva” no dia 9 de Outubro pelas 20h na Kantine am Berghain.

 

A Berlinda aproveitou a oportunidade para entrevistar Aline Frazão, numa espécie de revisão destes seus últimos anos de carreira.

Voltando um pouco atrás no teu percurso de vida, sabemos que és licenciada em comunicação e que aos 15 anos já escrevias as tuas primeiras canções. Quando é que a música se impôs no teu caminho como algo que deveria ser levado a sério? O curso de comunicação contribuiu de alguma forma para que continuasses a escrever e a expressar-te através da música?

Acho que foi quando fui viver em Barcelona pela primeira vez que comecei a pensar mais seriamente a dedicar-me à música. Comecei a fazer alguns concertos a solo, com repertório angolano, caboverdiano, brasileiro e algumas músicas minhas e via que funcionava, que os convites continuavam a chegar. Até que recebi o convite para tocar no “Cantos na Maré”, um festival galego dedicado à lusofonia. E foi depois dessa experiência que decidi que ía gravar o meu primeiro disco, “Clave Bantu” (2011). O curso de comunicação ajudou-me muito a construir a minha carreira nesses primeiros tempos, precisamente na componente de comunicação, a importância disso, do website, da imagem de capa, dos videos, da internet. E serve-me até hoje. Mas a forma como me expresso na música difere muito da forma como me expressava quando escrevia para o jornal Rede Angola, por exemplo. São mundos diferentes para mim.

Logo no teu primeiro álbum, “Clave Bantu”, trabalhaste com nomes importantes da cultura de língua portuguesa, como os escritores angolanos José Eduardo Agualusa e Ondjaki. Como foi que isso aconteceu? Já os conhecias? Havia afinidade por serem angolanos?

Sim, a afinidade é imediata. É a palavra que nos une. De certa forma não é difícil chegar até eles porque ambos gostam muito de música e estão atentos aos novos talentos em Angola. Eles foram logo muito abertos e disponíveis. Lembro-me que o Agualusa mandou umas três letras. Eu musiquei as três mas só gravei uma delas. Tanto o Agualusa como o Ondjaki sempre me apoiaram muito, desde o começo. E para mim foi, obviamente, uma tremenda honra poder colaborar com eles nesse disco de estreia.

 

Acabas de lançar o teu quarto disco a solo, “Dentro da Chuva”, (hoje, 21 de Setembro!). Quão diferente é a Aline de agora e a do primeiro trabalho “Clave Bantu”?

É a passagem do tempo que nos faz diferentes, a experiência de tocar em tantos palcos, a experiência de gravar e produzir discos com tanta gente diferente, a vida… O "Clave Bantu" foi um disco muito desejado, muito transparente, muito emotivo, muito visceral. O “Movimento” (2013) foi talvez mais calculado, mais pensado. O “Insular” foi o oposto, a descoberta, a aventura. E agora o “Dentro da Chuva” acaba por ser o retorno àquela verdade simples do meu primeiro disco. Um disco despido, sem muitos filtros.

 

Foi precisamente com “Clave Bantu” que pisaste o palco em Berlim pela primeira vez, em 2012, durante o Festival Berlinda. Seis anos volvidos, depois de muitos concertos, muitas viagens e quatro discos, o que sentes agora ao voltar à cidade?

Eu adoro Berlim! Costumo dizer que se vivesse na Europa vivia em Berlim. É uma cidade que me é muito querida e é sempre uma alegria imensa voltar. Guardo óptimas recordações daquela noite no Lido, com a Berlinda, o Dino d’ Santiago… Apresentei o “Insular” na mesma sala em que vou apresentar o “Dentro da Chuva” e estou ansiosa. Também por ser uma cidade tão cheia de oferta cultural, acaba por ser um desafio maior.

 

“Dentro da Chuva” foi gravado no Rio de Janeiro e inspira-se musicalmente na tradição cantautora - palavra, voz e violão. Disseste em entrevista que é um disco muito minimalista e também muito pessoal, pois celebra o teu regresso a Luanda após 10 anos fora, tendo sido todo escrito lá. Podes contar-nos um pouco mais sobre este trabalho?

É um disco que eu já queria fazer há muito tempo. A questão era “quando”. E de certa forma, quano regressei a Luanda, depois de dez anos fora, esse momentum impôs-se. Era uma viragem e página, era um momento de mudança e de um certo caos que se foi organizando aos poucos, à medida que ia escrevendo o disco. Quis gravar no Brasil, no Rio de Janeiro, para estar mais perto dessas referências sonoras da MPB que me inspiram até hoje, esse tradicional voz e violão. A experiência em estúdio foi super tranquila. Havia muito foco, talvez por sermos poucos por ali. Havia paz, tempo e silêncio para as canções acontecerem.

Viveste em Lisboa, Barcelona, viajaste pelos quatro cantos do mundo… como tem sido a experiência de viver de novo em Angola e “voltar às raízes”?

Tem sido muito bom. Aprendo muitas coisas, questiono muitas coisas, observo as mudanças que estão a acontecer no país de perto e isso é muito bom. Estou perto da família, apesar de estar longe de queridos amigos que deixei noutras paragens. Viajo muito. Mas quando estou em casa, em Luanda, procuro recuperar energias para o que vem depois. E tem sido mesmo muito bom. Mais fluido do que eu esperava até.

O novo álbum traz de novo colaborações com diferentes artistas, como o mestre brasileiro Jaques Morelenbaum, a cantora e compositora baiana Luedji Luna ou o músico português João Pires, entre outros. Como foi a experiência de colaborar com músicos de backgrounds tão distintos?

Foi maravilhoso. Bem, para já, ter o Jaques Morelenbaum a tocar uma música minha é a realização de muitos sonhos ao mesmo tempo. Ele é extraordinário. Cada vez que oiço o “Areal de Cabo Ledo” emociono-me com o som do violoncelo dele ali, misturado com a minha voz. A Luedji é uma força desse novo Brasil, é uma artista inspiradíssima, inteligente e dona de uma voz maravilhosa. A relação dela com a música africana foi possivelmente o que nos fez cruzar caminhos. A música que ela gravou comigo, “Kapiapia”, é provavelmente o coração deste disco. O João Pires é meu irmão, de músicas e de palcos. Adoro a música que fizemos juntos. Sou fã do trabalho dele, da linguagem dele, dos discos dele, onde tive o orgulho de participar. Acho que estes três artistas acabam por ter todos um universo muito pessoal, muita personalidade musical. É desses artistas que gosto de estar perto.

“Peit Ta Segura”  é o primeiro single do álbum. Podes contar-nos porque é que decidiste cantar em crioulo de Cabo Verde? Porque é que é tão especial para ti?

Primeiro, sou uma fã antiga do trabalho do Danilo Lopes da Silva. Ele é um compositor e cantor de São Vicente, vive em Lisboa, e tem muitas canções lindas, absolutamente deslumbrantes. Queria cantar em criolo neste disco para registar de alguma maneira essa minha ligação - familiar, musical, afectiva - com Cabo Verde. E esta música encaixava na perfeição no tom que eu queria que o disco tivesse, na simplicidade e beleza essenciais que eu buscava. Estou muito contente por ter gravado o Danilo e muito orgulhosa do viodeoclip que fizemos, que é uma obra de arte independente, realizado pelo Fradique. Um video muito especial mesmo.

 

Por último, gostaríamos de te pedir para desvendares um pouco do que vai acontecer no concerto de dia 9 de Outubro aqui em Berlim…

Dia 9 de Outubro vamos fazer o concerto de estreia deste disco na Europa. Ao meu lado vão estar três enorme talentos: Miroca Paris, de Cabo-Verde, na percussão; o Mayo, de Angola, no baixo; e a Jéssica Pina, luso-angolana, na trompete. Vamos tocar os temas do disco novo e alguns dos discos anteriores, estreando este novo formato de banda que acho que tem um potencial incrível. Vai ser uma noite linda e espero por vocês lá!

A Berlinda é parceira da promotora do concerto, handshake booking, e oferece entradas grátis para o concerto. Veja como participar aqui!

 

02/10/2018

Foto: ©Fradique

Rita Guerreiro

Licenciada em Audiovisual e Multimedia pela ESCS – Escola Superior de Comunicação Social (Lisboa), chegou a Berlim em 2010. Depois de ter participado em vários projectos de voluntariado e iniciado o Shortcutz Berlim, juntou-se à nova equipa Berlinda em 2016 e é desde então editora do magazine, para o qual contribui com vários artigos e entrevistas. 

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