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26/02/2019

Foto: © Basilisco Filmes

“A Portuguesa”, Rita Azevedo Gomes

“Gosto das coisas que não são explicadas, que não são ditas.” - Rita Azevedo Gomes


 

“Porque não?” foi a resposta imediata de Rita Azevedo Gomes à pergunta relativa à escolha do conto de Robert Musil como fonte de inspiração para o seu filme. “É uma coisa que todos me perguntam”. Prosseguiu, então, explicando o que a levou a transformar o conto em filme: “É um texto muito forte, acho que o conto é muito intrigante e sugestivo e deu-me um certo apetite”. Apetite, curiosidade, admiração e vontade de fazer foram alguns dos ingredientes essenciais para “cozinhar” o seu novo filme: “A Portuguesa”.   

 

Uma portuguesa inspirada num conto

 

Inspirado no conto do austríaco Robert Musil, “Die Portugiesin”, e com adaptação e diálogos de Agustina Bessa-Luís, o filme teve estreia internacional na 69. Berlinale na mostra Forum. Na sessão de perguntas e respostas após a projecção, Rita Azevedo Gomes fez-se acompanhar de duas das actrizes - a portuguesa Clara Riedenstein e a alemã Ingrid Caven - e falou de forma descontraída sobre a escolha do texto, dos actores e da construção da narrativa.

 

“Conheci a Clara quando ela tinha 16 anos e disse logo: é ela. Não sei como, era um grande risco porque acabávamos de nos conhecer”. Incertezas à parte, era ela a actriz ruiva que procurava para o papel principal. Já a personagem de Ingrid Caven por quem a realizadora confessou ter ”uma admiração e amor pessoal”, goza de toda uma dimensão própria: fora da narrativa principal, deambula pelo filme enquanto canta e recita versos de Walther von der Vogelweide, poeta austríaco e um dos mais importantes da Idade Média. Sobre o seu papel bastante singular, confessou ter sido algo quase espontâneo. “A Rita convidou-me para participar no filme dela mas que não tinha um papel para mim. Perguntei-lhe então que fazia exactamente e ela disse: andas pelo filme, falas um pouco, cantas um pouco...”.

 

Em “A Portuguesa” são as paisagens naturais e os demorados planos sequência do consagrado director de fotografia Acácio de Almeida, que primeiramente saltam à vista. Depois, o trabalho dos actores, como é o caso de Marcello Urgeghe, o nobre Von Ketten, que só se sente vivo se estiver na guerra, e a sua mulher, donzela semi-abandonada que, no entanto, se recusa a voltar para trás, interpretada por Clara Riedenstein.

 

“A guerra, sempre a guerra”

 

O filme, ambientado no século XVI, quando os von Ketten disputam as forças do Episcopado de Trento, retrata a solidão desta jovem mulher que vive num castelo muito pouco acolhedor no norte de Itália. Os seus dias são longos e a sua espera pelo marido que está na guerra é incansável.

 

A actriz revelação do filme falou da sua experiência desde o momento do casting à rodagem: “Recebi uma chamada de alguém que disse que queria fazer um filme comigo, mas não sabia quem era ao certo. Fui fazer um teste onde disse uma ou duas linhas e saí-me pessimamente, mas a Rita escolheu-me à mesma - provavelmente por causa do cabelo. O trabalho com o Marcello foi um pouco de improvisação, com a Rita a dar-nos direcções. Eu tinha feito um filme antes deste, mas nada como trabalhar com a Rita. É como trabalhar com uma mãe, alguém sempre a dizer o que temos de fazer”.  

 

A realizadora, considerada por muitos uma discípula do “mestre” Manoel de Oliveira, compõe todos os elementos com grande habilidade e cuidado, mostrando-se à altura do desafio “Tive o primeiro guião que a Agustina escreveu em 2007, mas talvez não estivesse preparada. Fiz dois filmes entretanto, mas quando o voltei a ler, o apetite voltou. Depois conheci a Ingrid, tive a sorte de encontrar a Clara e as coisas foram-se desenvolvendo”.

 

Rita Azevedo Gomes lembrou também que esta colaboração não foi o acaso do destino; já tinha trabalhado com a escritora anteriormente. “Fiz um filme com a Agustina em 2005 e ficámos próximas. Uma vez veio do Porto almoçar comigo em Lisboa e na conversa surgiu Musil”. Salienta também que este conto foi a última coisa que escreveu, porque pouco depois teve um AVC que a impossibilitou de continuar no activo. A sua admiração pela escritora é óbvia. “Agustina é uma escritora incrível. Para mim, Agustina e Dostoevsky são suficientes, posso ler e reler… Gosto da liberdade da escrita deles. Gosto das coisas que não são explicadas, que não são ditas”.

 

Em Portugal, o filme estreia já a 28 de Fevereiro no Espaço Nimas e Teatro Campo Alegre em Lisboa.

Licenciada em Audiovisual e Multimedia pela ESCS – Escola Superior de Comunicação Social (Lisboa), chegou a Berlim em 2010. Depois de ter participado em vários projectos de voluntariado e iniciado o Shortcutz Berlim, juntou-se à nova equipa Berlinda em 2016 e é desde então editora do magazine, para o qual contribui com vários artigos e entrevistas. 

Rita Guerreiro

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