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9 de novembro de 2014: 25 anos da queda do Muro de Berlim | Reportagem

Foto: Sebastião Batista, Suely Torres e Delfim Freitas. © Fotografia: António Pardal, Ilustração de Vitor Castro para Berlinda.org

Antes e depois: três histórias da lusofonia na queda do Muro.

 

«Ninguém tem a intenção de erguer um muro (Niemand hat die Absicht, eine Mauer zu errichten)», disse Walter Ulbricht, Presidente do Conselho de Estado da República Democrática Alemã (RDA) entre 1960 e 1973, dois meses antes de mandar erigir um muro em Berlim. Facto foi que entre 1961 e 1989 o mesmo separou Berlim Ocidental de Berlim Oriental, isolando o primeiro do último. A divisão não foi apenas uma questão de isolamento territorial, mas também uma demarcação de uma Alemanha conivente com a ideologia capitalista que a ocupava – República Federal Alemã – e outra Alemanha de orientação soviética – RDA.

Logo após a divisão, em 1949, da Alemanha em dois blocos, Ocidental e de Leste, a presença dos Gastarbeiter (trabalhadores convidados) começou a fazer-se sentir com cada vez mais intensidade. A RFA reabilitava e desenvolvia a sua economia a olhos vistos – o denominado Milagre Económico -, de acordo com um modelo sociopolítico de economia social de mercado. Precisava, consequentemente, de mão de obra que mantivesse a estabilização de um mercado renascido, mas ainda frágil. Esta premente necessidade agudizou-se ainda mais em 1961, quando o Muro de Berlim reduziu o fluxo de alemães da RDA a emigrar para a RFA.

Os alemães da RDA que, até à edificação do muro, emigraram para a RFA, foram aqueles que debilitaram a mão de obra da parte soviética. Ao contrário da RFA, a RDA demorou muito tempo a encontrar uma resposta a esta carência. Só em 1963 firmou o seu primeiro contrato com os Vertragsarbeiter, sendo estes, sem exceção, oriundos de países socialistas ou comunistas, alinhados com a orientação soviética. Nestes, inseria-se Angola, onde a RDA foi buscar bastante mão de obra, ainda que esta fosse menor do que em Moçambique, por exemplo.


Delfim Freitas é angolano e tem, em 2014, 65 anos. É delegado da TAAG – Linhas Aéreas de Angola desde 1988, oficialmente. Nesse ano, ainda com 28 anos, mudou-se de Luanda – onde, em pouco tempo, assumiu a chefia de escala – para a RDA, como Gastarbeiter dos países de economia planificada. Foi em Luanda, Lisboa e no Brasil que obteve a formação comercial e operacional que lhe permitiu entrar em força no mercado de trabalho angolano e que até hoje lhe mostrou ser proveitosa.

«Nada me motivou a vir para Berlim», diz, no entanto. A sua vinda não foi algo premeditado, mas sim fruto da abertura de uma delegação da TAAG na RDA, onde precisavam de alguém já experiente, capaz de dar conta do desafio de «criar as suas próprias receitas, custear as suas despesas de funcionamento e dar a sua contribuição para o pagamento das despesas gerais da empresa». Ao lado, estava a RFA, com um mercado importante, «mas o muro era um enorme impedimento para os negócios», lembra. Para cúmulo, a ausência de estrutura diplomática, na altura, tornou a tarefa de Delfim ainda mais custosa.

Recorda, com desconsolo, o dia 13 de junho de 1988. Após uma visita de trabalho a Luanda, Delfim viu-se forçado a voltar para a RDA, sem a família, uma vez que o seu trabalho já estava feito. Esta era a data do seu aniversário, o qual passou sozinho, num quarto de hotel, em Berlim Leste.

Para si, «na vida da RDA, o alemão estava metido numa campânula, da qual não tinha acesso ao mundo exterior. O Governo alemão de Leste tinha normas e regulamentos muito rígidos para evitar o contacto entre os alemães e os estrangeiros». Apesar destas discrepâncias, Delfim lembra que os diplomatas e os representantes de empresas estatais angolanas gozavam de um estatuto que não correspondia àquele em que os trabalhadores não-qualificados se inseriam.

No dia 9 de novembro de 1989, Delfim encontrava-se na sua casa, enquanto a televisão fazia a cobertura da revolução que se fazia nas ruas de Berlim, frente a Brandenburger Tor. A movimentação social já se vinha fazendo há alguns dias, pelo que a queda do muro não se lhe afigurou como uma surpresa, mas sim como uma inevitabilidade. «Nos dias seguintes, as coisas acalmaram. As fronteiras abriram, aqueles guardas todos desapareceram, os portões estavam abertos, outras pessoas com picaretas e martelos tentaram partir o muro, mas apenas por uma questão simbólica, porque os portões estavam abertos. Os próprios habitantes de Berlim Ocidental não saíam à rua, ficavam nas varandas a ver a “invasão” dos alemães da RDA», diz.

Após 25 anos em Berlim, Delfim abraça já a ideia de que esta é a sua cidade, onde deu continuidade à sua família e ao seu trabalho.

Vinte e quatro anos antes de Delfim, Sebastião Batista, proveniente de São Jorge da Beira, uma pequena aldeia no concelho da Covilhã, Portugal, aventurou-se para o país que chama de «terra dos marcos».

Os sonhos que esperava concretizar e os objetivos que se tinha colocado eram caraterística quase obrigatória do Gastarbeiter português da década de 1960: «Ganhar dinheiro à farta, que me chegasse para uma boa vida, sobrando o suficiente para comprar um carro, viajar quando me apetecesse, construir uma casinha (na minha aldeia na Beira Baixa), vivendo ao mesmo tempo na Alemanha, num belo apartamento com vistas largas».

Chegou a Neuss, Alemanha Ocidental, em 1964. Aí trabalhou como varredor numa fábrica de tratores e como operador de máquinas. O Curso Comercial que tinha tirado em Portugal ainda não tinha dado os seus frutos, pelo que se sentia incompleto e insatisfeito a nível profissional. Apesar disso, foi só na sequência de um dissabor amoroso que decidiu comprar um bilhete de ida para a RFA. «Depois de anos como trabalhador não qualificado, encontrei finalmente emprego num pequeno banco em Berlim, onde trabalhei então dezenas de anos na secção de contabilidade». Foi este o trabalho que lhe permitiu levar uma vida despreocupada, mas nem por isso desafogada, em Berlim, com a sua família.

Sobre a liberdade de trânsito na RDA, e o regresso à emancipação que já se avizinhava, Sebastião compara-a com o momento de viragem política do seu país, onde não esteve presente, a Revolução dos Cravos, a 25 de abril de 1974. «Quando saí da estacão do metro na Wittenbergplatz deparei-me com uma multidão colossal de alemães de Leste que, como uma avalanche humana, vagarosamente se arrastava ao longo da avenida Tauenzien em direção à Kurfürstendamm. A polícia tinha vedado completamente estas avenidas ao trânsito de carros. Resolvi mergulhar nesta impressionante procissão, deixando-me em silêncio arrastar por ela. Eram dezenas de milhares de seres humanos, mas todos tão pacíficos, tão disciplinados e tão respeitosamente falando baixo, que parecia mover-me no interior duma catedral», conta.

História tinha sido feita e, consequentemente, houve comemorações ao longo dos vários dias que se lhe seguiram. No entanto, Sebastião chamou a atenção para um outro tipo de sentimentos que surgiram, como «preconceitos e irritações [que] começaram a reger as relações mútuas», alimentados pela ideia de uma RDA que a pouco e pouco renascia das cinzas e se apresentava, então, como uma concorrente à economia da RFA.

Apesar de a maioria dos seus sonhos não ter passado de um imaginário inacabado, Sebastião faz um balanço positivo da vida que construiu na Alemanha, diferente daquilo que, na década de ’60, tinha projetado para si.

Desenquadrada das vagas de Gastarbeiter que injetaram mão de obra nas duas Alemanhas veio Suely Torres, cidadã brasileira, natural de Recife. Em 1988, mudou-se para Berlim com o intuito de estudar. A instabilidade política foi o que mais lhe pesou na decisão de ficar na cidade dividida, uma vez que tinha crescido numa ditadura no Brasil. Era em Espanha, França ou Londres que pensava seguir os seus estudos de Filologia, mas o facto de o jornalista brasileiro Fernando Gabeira estar em Berlim e, sobretudo, a desburocratização das universidades berlinenses face às suas outras opções fizeram com que se estabelecesse nessa cidade.

Suely acreditava que estudar fora era sinónimo de «abrir horizontes e ter outras experiências». Era uma «oportunidade de ir para outro lugar, continuar estudando e ter mais uma chance na sociedade». O que inicialmente seria uma experiência transitória na sua vida acabou por mudá-la.

Estudou Lateinamerikanistik – Brasilianistik no Instituto Latino-americano da Freie Universität Berlin. É professora de português na Volkshochschule, já há 15 anos, gestora de eventos literários e dá assistência a artistas.

Viveu na RFA, em Kreuzberg, mas foi em Charlottenburg que se registou, dado o avultado número de imigrantes estrangeiros daquela freguesia.

«Antes da queda do muro, a RFA era muito rica. Era como se você morasse numa ilha onde tudo funcionava. De uma certa forma, as pessoas tinham uma estabilidade. Existia muito dinheiro dos EUA. Berlim não era pobre como hoje. Tinha um movimento ativista muito bem estruturado, tinha uma organização dos trabalhadores muito boa. Era muito politizado, muito ativo, menos consumista. É muito fácil você viver a participar numa cidade que é uma ilha», diz Suely sobre a qualidade de vida na RFA.

«Depois da queda do muro, foi um outro Berlim. Um Berlim que recebeu todos os seus compatriotas, abriu suas portas, e de repente esse Berlim era muito espaçoso. Tinha tudo, mais do que precisava e muita gente que precisava de si. Teve que receber essas pessoas, pagar por essa reestruturação».

Tal como Sebastião Batista, Suely está ciente de que a queda do muro não significou igualdade de oportunidades. Pelo contrário, «primeiro vinha o alemão da RFA, depois o da RDA, e só depois vem alguma coisa para os estrangeiros. A concorrência no mercado de trabalho, as vagas na universidade, os apartamentos, tudo era muito mais difícil».

Logo após a queda do muro, Berlim tinha em mãos o fundamental papel de pôr em prática a reestruturação da cidade. Essa passava não só por uma reestruturação urbana, mas também social. Era preciso encontrar uma forma de inserir os berlinenses de Leste no mercado de trabalho e de lhes reconhecer os estudos. Só no fim da lista de prioridades apareciam os estrangeiros.

Apesar de estar ciente do relativo privilégio que viver na RFA era, lembra momentos assombrosos: «Com toda a liberdade, eu estava cercada pelo muro. Quando saía da cidade para ir a Munique ou Hamburgo, de carro, sempre tinha que mostrar documentos e parar o carro numa fila enorme. A polícia abria o carro para saber se estava alguém escondido. Aquilo era muito constrangedor, como se você estivesse sendo revistado por droga ou por crime.»

Segue com: «Outra coisa era andar de metro, de Kreuzberg até Wedding, por exemplo. Você passava por várias estações que estavam escuras e fechadas, inutilizadas, porque passavam por uma parte da fronteira. O metro apagava as luzes e aumentava a velocidade, para que ninguém que estivesse escondido nessas estações pudesse subir. Às vezes, passava duas ou três estações sem parar.»

Aquando da queda do muro, Suely estava em casa, tal como Delfim e Sebastião, assistindo ao que a comunicação social transmitia. A princípio, ainda pensou que o seu pouco conhecimento da língua alemã a atraiçoava, não deixando perceber ao certo se estava ou não a ser feita uma revolução. Tentou ir até Brandenburger Tor de U-Bahn, mas milhares de pessoas tiveram a mesma ideia. «Peguei a minha bicicleta e fui para lá [Branbenburger Tor]. Já lá tinha batucada, samba, festa. Gente se jogando em cima do primeiro que encontrava para abraçar. Era uma festa de comemoração à vida. Eu chorei com um monte de gente sem saber quem eram aquelas pessoas, porque era muito emocionante. Até hoje, quando conto, sinto aquele momento e aquela emoção.»

Apesar de metade da sua vida ter sido passada em Berlim, Suely considera que o país onde cresceu e as raízes que lá formou são indissociáveis da pessoa que é. «Eu sempre comparo a minha cultura, a minha língua, com um casaco que não se tira, e que tenho de levar comigo. O resto é o que vou adquirindo, botando nos bolsos e nas bolsas. Mas esse casaco sou eu.»

 

 

  

 
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Diogo Vital

Nasceu no Porto, Portugal, em 1990. Licenciou-se em Línguas, Literaturas e Culturas (Inglês e Alemão) pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Encontra-se no segundo ano do Mestrado de Ciências da Comunicação, pela mesma Faculdade. Vive e trabalha em Berlim desde setembro de 2014.

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