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O Cristóvão regressa a casa! I Programa de Voluntariado Berlinda

Foto: Cristóvão numa das visitas © Lígia Fascioni

Ao fim de três anos, a espera parece ter chegado ao fim: o “nosso” Cristóvão, o menino angolano que veio para a Alemanha em 2012 para um tratamento médico de seis meses, vai poder finalmente regressar a casa!

O Cristóvão é uma das crianças que recebem visitas dos voluntários da associação Berlinda. Elas vêm de países com graves carências médicas, como é o caso do Afeganistão, Bangladesh ou Angola, trazidos por uma associação de cariz humanitário, o Friedensdorf, que traz duas vezes por ano 150 crianças em situação crítica, para serem tratadas na Alemanha por um período de seis meses – ou até estarem curadas. A Berlinda tem uma parceria com o Friedensdorf. Como associação de apoio à comunidade de língua portuguesa em Berlim que somos, fornecemos desde 2012 apoio regular e visitas contínuas às crianças de língua portuguesa que vêm para Berlim e Brandemburgo. Quando o nosso programa de visitas começou, em 2012, tínhamos por objectivo conseguir uma visita semanal a cada criança. Em 2014 já estávamos em 2,4 visitas semanais. Em 2015 aproximamo-nos das 3,8 visitas por semana a cada criança.

Estas crianças vêm de meios sociais extremamente pobres e passam  todo o tempo do tratamento longe da família,  que fica nos países de origem. Regra geral, permanecem na Alemanha por um período de seis meses, ao fim do qual regressam ao seu país de origem, já curadas e com uma experiência para a vida. Durante esse tempo, muitos não têm sequer a possibilidade do contacto telefónico. Quando chegam, não sabem uma palavra de alemão e não entendem o que lhes está a acontecer – entre injecções, operações, tratamentos numa língua que não entendem. A Berlinda esforça-se por providenciar a estas crianças, através de muitas visitas, em primeiro lugar a tradução de tudo o que se passa, e também muito mimo, carinho, brincadeiras, gargalhadas, num ambiente o mais familiar possível, uma verdadeira rede de apoio à criança, que sentindo-se assim amparada tem muito mais capacidade de reacção à doença e chances de recuperação.

Porém, o essencial parte da própria criança. Tentamos dar-lhes o maior apoio e carinho possíveis, sabendo que nunca substituiremos a família. E ficamos sempre espantados com a enorme capacidade de superação, com a força interior e com a nobreza destas crianças.

O Cristóvão – o pioneiro do nosso trabalho, pois foi com ele que começámos o nosso programa de visitas – infelizmente teve um problema de saúde tão grave, que o obrigou a ficar na Alemanha por três anos. Três longos anos longe da família, de casa, dos amigos, mas com o apoio incondicional dos nossos voluntários. Fizemos várias festas de aniversário (a primeira, a segunda e a terceira), recolhemos livros, angariámos postais do mundo inteiro só para o ver sorrir, até fizemos com ele um boneco gigante que pudesse desfilar pelas ruas de Berlim. Levámos comida, corrigimos exercícios, comprámos roupa, brinquedos, jogos de vídeo, livros, perfume, canetas, lápis, marcadores, cadernos. Organizámos Workshops de desenho, ilustradores profissionais partilharam com ele as suas técnicas. Ouvimo-lo quando nos telefonava – tantas e tantas vezes!, falámos com ele quando nos pedia, ficámos em silêncio juntos quando necessário.  Tudo pouco mais do que nada, comparado com a alegria de vê-lo crescer e tornar-se no jovem lindo e talentoso que é.

Escusado será dizer que os laços criados com ele são fortíssimos. O Cristóvão aprendeu alemão, tornou-se num rapaz forte, bonito, inteligente e educado, sensível e brincalhão, que irá deixar muitas, mesmo muitas saudades. Ao longo deste tempo, desenvolveu um verdadeiro talento pelo desenho e técnicas de ilustração. O que era uma forma de passar o tempo, passou a ser uma paixão, que foi naturalmente muito apoiada e incentivada por todo o grupo.

Soubemos agora que finalmente o Cristóvão poderá regressar a Angola em novembro de 2015. O tão esperado avião lá estará para o levar de volta a casa.

Procuramos uma associação ou instituição angolana ou activa em Angola, que possa orientá-lo e guiar os seus passos no regresso a casa. O Cristóvão é um menino especial, talentoso e guerreiro, que durante três anos aprendeu a viver e sobreviver entre dois mundos. Travou uma luta contra um inimigo invisível, gigantesco – e venceu. Queremos ajudá-lo a encontrar o seu caminho no seu lugar de origem, e que esse caminho se possa cruzar muitas vezes com o nosso.

A despedida está para breve. A alegria de o saber de volta só é comparável à tristeza de o ver partir. O “nosso” menino.

Estamos orgulhosos de ti, Cristóvão. Muito. Nunca te esqueças disso.

 

 

  

 
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