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Vou estar em Berlim por uns dias. Vamos beber um café?

Maria-Grácia Guimarães

Fotos: © Lúcia Vicente

Todos os dias chegam a Berlim milhares de pessoas. Umas são turistas. Muitas. Outras vêm para ficar. Menos. Mas ainda assim muitas. Não sabem por quanto tempo, ou o que vão fazer. Mas vêm para ficar. Todos os dias acontecem na cidade festas de boas vindas e festas de despedida. Síndrome de cidade grande.

Já perdi o número de pessoas que conheci, que viveram em Berlim por uns tempos e depois partiram. Elas e o meu coração junto com elas. Fica sempre a promessa de um dia voltarem.

A saudade é uma constante nesta cidade. Entranha-se nos parques, na margem do canal, no bar aonde dançávamos, no café que bebíamos.

Já conheci pessoas fantásticas. Pessoas que fiquei contente por se irem embora. Outras que aguardo a noticia do seu regresso, todos os dias.

Nos nossos dias, ser emigrante significa, também, acompanhar a vida dos amigos pelo facebook. Conhecer os seus filhos, as suas vitórias, as suas derrotas, as suas preocupações, através das redes sociais ou através de um ecrã de computador. Com o skype, o longe parece perto e até já se pode partilhar uma refeição virtualmente. Ora, tu estás aí no teu cantinho do Brasil – ou de Lisboa, ou de Copenhaga, ou dos Estados Unidos, ou de… – e eu aqui no meu cantinho de Berlim, sabe tão bem jantarmos juntos.

Já tinha trabalhado este tema quando fiz a minha residência artística, no Hotel 25. O que significa hoje em dia a saudade e ser emigrante? Será com certeza diferente daquilo que foi para o meu avô, quando nos anos 50 emigrou precisamente para a Alemanha. Ou nos anos 60, quando a minha mãe emigrou para a Venezuela. Postais e cartas versus facebook e email. Voos caríssimos versus voos low-cost. Um balúrdio para ligar para o único telefone da vila versus não pagar nada ao ligar pelo skype.

A verdade é que neste estilo “neo-emigra” de Berlim se fazem amizades que ficam no nosso coração para sempre.

Felizmente 2013 tem sido um ano de regressos. Mesmo amigos que ainda não chegaram, nem nunca viveram aqui, vão regressar a Berlim. Vieram de férias, apaixonaram-se pela cidade e prometeram que um dia viriam para perto de nós. Chegam em Outubro, mesmo a tempo do meu aniversário. Outros que já tiveram a festa de despedida e, depois de uns anos, voltaram este Verão. Que bom. Gosto mais de dizer olá, outra vez, do que adeus e boa sorte.

E as visitas? Nesta montanha-russa de amizades que é Berlim, o que mais gosto são as visitas das amigas. Das que já viveram aqui ou das que vivem por aí. Aquele abraço forte no primeiro dia. A diversão de nos revermos. As conversas intermináveis: Onde estás agora? Em que país? E para onde vais agora? E quando voltas? Que tens andado a fazer? Como está a tua vida? Que saudades disto! Apesar de tudo, sabe sempre melhor saber das novidades ao vivo e com as cores todas a que tenho direito.

Não tenho visitas muito frequentemente, confesso que gostava de ter muitas mais, mas quando as tenho sabe tão bem. É um bocadinho do coração que se amaina. Ilumina. Aquece. E depois as recordações que ficam destes reencontros.

Há momentos de Berlim que nunca vou esquecer: a festa dos meus trinta anos, em que vieram amigas que moravam em tantas outras cidades. A despedida da minha querida Leticia. As idas ao “escritório” – que na verdade era a margem do Spree onde faz sempre Sol – em que encontrava sempre a Ágata. A noite em que, depois, me despedi da Ágata. A visita à “morada actual” da Marlene Dietrich com o Fau. O regresso da Paula e do Ricardo. As visitas da Patrícia que morava em Copenhaga e agora vai para os “States”. O meu Alfredo que visito agora em Lisboa, mas que me acompanhou e escutou tantas e tantas vezes nos primeiros tempos de Berlim. E tantos outros momentos em que a alegria e a saudade andam de mãos dadas e abraçam o coração.

Ser emigrante é mesmo assim. É viver as amizades que se fazem, o melhor e o mais intensamente possível, enquanto os amigos estão perto de ti, e viver a sua saudade quando os mesmos passam a virtuais. É conhecer mil e uma pessoas e dizer-lhes adeus e olá outra vez. É ficar feliz pela mensagem que se recebe e que diz: Vou estar em Berlim por uns dias. Vamos beber um café?

Lúcia Vicente

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Lúcia Vicente

Lúcia Vicente nasceu em Faro (Portugal) é licenciada em História – Ramo Cientifico pela FSCH da Universidade Nova de Lisboa. Vive em Berlim desde 2009. É atriz, performer, DJ e blogger. É diretora artística da Immoral Babylon Productions e prepara atualmente o espetáculo Berliner Luft. Organiza um dos segredos mais bem guardados de Berlim: as visitas guiadas vintage.

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