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Entre Portugal e Brasil – entrevista a Welket Bungué

Foto © Guido Argel

“Lisboa é apegada à sua gente. Rio de Janeiro é sonhadora. Berlim é o Lugar!”
Vive no Rio de Janeiro desde 2012, ano em que se mudou para o Brasil para estudar performance. O luso-guineense Welket Bungué é actor, realizador, guionista e performer e desloca-se frequentemente entre Brasil e Portugal. 
Depois do sucesso em Portugal, nomeadamente com prémios como melhor actor na curta-metragem “Mutter”, de Rafael Martins e Tony Costa, participação na série televisiva “Equador”, telenovela “Meu Amor”, ou recentemente no aclamado filme “Cartas da Guerra” que esteve presente na Berlinale em Fevereiro de 2016, chegou a altura de conquistar a cidade maravilhosa com um novo projecto, o Shortcutz Rio de Janeiro. A 10 de Junho de 2016, juntamente com o português Miguel Pinheiro, juntou mais uma cidade à família já grande do Shortcutz.
Numa tarde chuvosa e fria, bem ao estilo do Outono em Berlim, trocámos ideias sobre o Shortcutz Rio de Janeiro e demais projectos artísticos deste novo conquistador do cinema lusófono, Welket Bungué.
Com uma carreira de sucesso como actor – e não só – em Portugal, como se deu a tua ida para o Brasil?
Antes sequer de começar o Shortcutz no Rio a minha vida já era dividida entre Portugal e o Brasil. Entre 2012 e 2015 fui convidado a participar em vários projectos de cinema e teatro no Brasil, além de ter estudado Performance no Rio. Foi lá também que comecei uma parceria e amizade, que ainda hoje continua, com o Miguel Pinheiro, através da plataforma 10pt que ele começou. Embora não tivesse sido premeditado, o meu percurso continuou a chamar-me para o outro lado do oceano, e ainda bem.
Como se deu a oportunidade de começar o Shortcutz no Rio de Janeiro?
Começou através da necessidade em criar uma plataforma regular onde artistas emergentes da cidade e da periferia pudessem demonstrar o seu trabalho. Já conhecia bem o Shortcutz Lisboa, por isso sabíamos que se iria encaixar no Rio.
Qual o feedback que tens tido do público até agora?
Tem sido muito bom! Embora seja um projecto novo, e que pela primeira vez é feito fora da Europa, a reacção tem sido bastante positiva. Os cariocas tem interesse pelo cinema e penso que ao longo do tempo a afluência será ainda maior. Existem outros festivais de cinema na cidade mas o Shortcutz oferece algo diferente. Temos sessões mensais que nos dão a oportunidade de mostrar mais filmes e também criar um público base e fiel.
Em que consiste cada sessão do Shortcutz Rio?
Primeiro temos as curtas metragens convidadas, e de seguida as que entram em competição. No final temos um bate-papo com os realizadores e perguntas do público. Logo a seguir apresentamos o espaço Alter Rio e, claro, no final terminamos com um acto musical, como não poderia deixar de ser num país como o Brasil. 
Podes contar-nos mais sobre o espaço Alter Rio?
De certa forma, o Alter Rio é uma novidade em relação aos outros Shortcutz nas outras cidades. Sentimos que no Rio havia uma maior necessidade em criar um espaço onde pudéssemos expor outro tipo de expressões artísticas. Pode incluir apresentações de obras literárias, exposições de fotografia, artes performativas, desfiles de moda, etc. Aliás, um exemplo recente foi que tivemos um desfile de moda de um estilista que mora na periferia do Rio, o que lhe deu uma oportunidade única e acessível em mostrar o seu trabalho na zona nobre da cidade. É para isto que o Alter Rio serve, por isso esperamos dar a mesma oportunidade a outros artistas da cidade, e principalmente da periferia, onde existe muito talento. 
Isto significa que tiveste de adaptar o conceito Shortcutz à sociedade brasileira? Qual é a diferença então entre Lisboa e o Rio?
Imprevisibilidade. O Rio é uma cidade enorme e em constante metamorfose. O mercado é bem maior do que Lisboa, há muita oferta em qualquer área artística, portanto tornou-se quase obrigatório adaptar-nos à sociedade e às lacunas que ela tem a nível artístico. Talvez por isso também adaptamos o conceito do Shortcutz às pessoas e à cidade. É um belo desafio, sem dúvida. Apesar disto tudo, há um ponto em comum com Lisboa e as outras cidades, é o de sermos uma plataforma visível para todos estes artistas emergentes á espera de um palco para se mostrarem. Daí também vem o nosso ênfase em artistas da periferia.
Cada projecto Shortcutz tem um júri, quem constitui o vosso?
O júri inclui grandes nomes das artes, como o ator de ‘Porta Dos Fundos’ Fábio Porchat, a atriz luso-brasileira Joana Solnado, o ator luso-angolano Hoji Fortuna, o músico Paulinho Moska, o francês Olivier Chantriaux (curador do Festival de Cannes), a produtora do Festival ‘Back2Black’ a Connie Lopes, o crítico de cinema André Miranda, o multipremiado fotógrafo mineiro Eustáquio Neves e o ator e  fundador do Grupo Galpão Teatro, Eduardo Moreira.
Como gostarias de ver o Shortcutz Rio daqui a cinco anos?
O ideal seria criarmos um base de dados grande do cinema novo brasileiro, termos cada vez mais afluência e assim sermos reconhecidos como um festival de renome sem nunca esquecer o espírito inicial. Cimentar a rede Shortcutz a nível nacional seria também um objectivo, ter outras grandes cidades como São Paulo, Salvador ou Belo Horizonte com este projecto daria uma plataforma única ao cinema e arte brasileiras.
Em relação à tua carreira, este ano estreaste as curtas “Bastien” e “Buôn”, dedicas-te então a outros projectos simultaneamente ao Shortcutz. Queres contar-nos um pouco mais sobre o teu trabalho?
A curta “Bastien” foi um filme que escrevi, realizei e actuei e que neste momento percorre festivais de cinema. “Buôn” foi um projecto com o realizador Miguel Munhá onde também escrevi o guião e participo como actor. Aparte disso estou com uma nova curta metragem como realizador e escritor que se chama “Arriaga”. Paralelamente a estes projectos a minha carreira de actor continua e em 2017 poderão ver-me novamente atuar em duas longas-metragens brasileiras, “Joaquim” de Marcelo Gomes, o realizador de ‘O Homem das Multidões’ e “Corpo Elétrico” de Marcelo Caetano.
E agora conta-nos um pouco mais da tua visita a Berlim, por onde andaste? O que te marcou mais?
A viagem a Berlim foi fabulosa, passeei por muitos lugares. Experimentei cozinha Vietnamita, Japonesa, tapas berlinenses e claro o famoso Curry Wurst. Aconselho vivamente a sala HAU, vi lá um espetáculo fabuloso dos Ndagga Rhythm Force, banda Senegalesa. Também estive em Tempelhofer Feld, incrível! Um aeroporto antigo com uma extensão enorme de pista onde as pessoas andavam de skate, praticavam kite skateborading, faziam churrascos e ainda havia quintas ecológicas. E estive no espaço Sophiensaele onde assisti a três performances incríveis protagonizadas por três mulheres, no ciclo de dança e performance Witch Dance Project. Saí de lá cheio.
Alguma experiência insólita ou engraçada em Berlim que queiras partilhar?
Esta tem piada! Eu e amigos marcámos encontro com outros amigos num kiosk, e quando lá chegámos era uma loja de conveniência onde se vendia de tudo, e numa sala ao fundo ouvia-se batucada e cantares familiares, eram brasileiros tocando e cantando samba com instrumentos tradicionais. Ali descobrimos outros luso-brasileiros-germânicos que se sentiam unidos pelo ritmo brasileiro.
Entrevista feita por Hugo Sousa

  

 
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Édi Kettemann

O Édi é uma pessoa muito curiosa, que se interessa por tudo aquilo que vê. Adora observar pessoas, os seus movimentos e interacções. Este é provavelmente o principal motivo que fez despertar nele, já desde pequeno, a paixão pelo cinema, teatro, pela escrita e fotografia. De formação engenheiro electrotécnico, algo que lhe deu a oportunidade de viver em diferentes países, interagir com diferentes culturas e familiarizar-se com várias línguas, dedica-se à cultura e à educação. Vive em Berlim desde 2016.

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Hugo Sousa

O Hugo é um guionista e realizador nascido no Porto, Portugal. Depois de estudar Fotografia na sua cidade natal, trabalhou em vários filmes na Holanda e na Alemanha. Vive actualmente na capital alemã e é, entre outras coisas, apresentador do Shortcutz Berlin. Também escreve: em 2014 publicou um livro de poesia em português, intitulado "Crónicas do Vazio". Contribui pontualmente com conteúdos para o magazine. 

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