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Emicida: "A minha missão é construir algo sólido, um legado que permaneça além das minhas rimas"

Foto: © Ênio César

 Leandro  Roque de Oliveira, mais conhecido como Emicida (que é uma fusão das palavras “MC” e “homicida” e que representa ainda a mensagem Enquanto Minha Imaginação Compor Insanidades Domino a Arte) cresceu a ouvir rap.

Filho da zona norte de São Paulo, o artista começou a fazer as primeiras rimas nas chamadas batalhas de freestyle (rimas de improviso) da capital paulista. O seu talento para a arte do improviso não passou despercebido e foi o mote para o início de uma carreira de sucesso. Atualmente, este é já considerado um fenómeno do rap que faz das suas palavras e rimas, verdadeiras armas que passam mesagens carregadas de significado.

Emicida atuará na Copa da Cultura 2.0 (Haus der Kulturen der Wel) na sexta-feira, dia 4 de julho de 2014. Leia, de seguida, a entrevista completa que o artista deu à Berlinda.

BERLINDA: Tem imensas visualizações no youtube, muitos seguidores nas redes sociais. A internet é o meio que mais o ajuda a divulgar o seu trabalho?Esta é uma boa forma de dar voz ao movimento da arte marginal/da periferia?

EMICIDA: Sim, na realidade de hoje, principalmente na América Latina, onde temos ditaduras muito recentes – em especial no Brasil, onde o modus operandi da ditadura ainda é presente em diversos setores -, a internet torna-se uma vitrine um pouco mais democrática, embora até o termo democracia pareça irónico na realidade às vezes. Mas consegue-se burlar muitos meios de comunicação que não reconhecem como arte ou manifestação cultural o que é produzido nas favelas do Brasil. Isso é um grande avanço já, principalmente se comparado à realidade de 15 anos atrás.

B: É já considerado um dos nomes do hip hop underground e rap brasileiro. Que planos tem para o futuro da sua carreira?

E: Acho que minha missão é construir algo sólido, um legado que permaneça além das minhas rimas, plantar frutos que serão colhidos pelas próximas gerações. Temos uma realidade muito desigual no Brasil. Penso que se em alguma instância eu conseguir atenuar, diminuir e influenciar as pessoas para que elas também estejam dispostas a isso, terei sido bem-sucedido nesta empreitada.

B: É de S. Paulo, cidade onde nasceram diversos artistas da área da música e não só. Na sua perspetiva, esta cidade é um dos berços da arte?

E: São Paulo é uma metrópole por onde passam quase todas as manifestações culturais do Brasil de alguma forma, seja devido à logística para se cruzar o país via empresas aéreas, seja pelas gravações que ocorrem aqui, os festivais e os eventos. Sou influenciado por essa grande onda de artistas que estão sempre de alguma forma em solo paulistano cantando e dançando.

B: A ligação S. Paulo/Berlim tem ajudado na internacionalização da sua carreira?

E: Adoro Berlim. Achei até um lugar que vende feijoada aí. A experiência de passar por uma cidade com um idioma tão diferente do meu me faz trabalhar e ver minha arte de outras formas, isso é fascinante e faz um artista evoluir muito. A resposta da sua pergunta é sim.

B: Os paulistas vão estar em grande na Copa da Cultura. Além de si, estarão presentes Bixiga 70 e Tulipa Ruiz. A sua cidade está bem representada?

E: Não pude acompanhar quem serão os artistas que vão se apresentar ao todo, mas esses nomes que você listou são ótimos artistas, sim. Sempre acho que tem pouco ou nenhum rap nessas programações, mas isso é uma conversa complexa. Deveria ter mais coisa de favela, o Brasil é muito rico culturalmente. Embora eu seja contemplado por essa realidade de alguma forma, é urgente que se deixe de pensar apenas no Sudeste quando se fala de cultura Brasileira…

B:  Muitos destes artistas atuam muitas vezes na Alemanha, e em Berlim em particular. Eventos como a Copa da Cultura são positivos para a divulgação da cultura brasileira?

E: Claro que sim, ajudam também a criar uma outra imagem da Alemanha no Brasil. Sabemos muito pouco da Alemanha, estereótipos são quebrados com esse tipo de intercâmbio. Isso acaba sendo positivo não apenas para a cultura Brasileira como para a alemã também.

B: Gosta de futebol?

E: Sim, mas não sou um fanático!

B: Que final gostaria de ver (Brasil vs. X)?

E: Brasil e Argentina, com o Brasil vencendo, óbvio.

B: O futebol é um bom tema para fazer rimas?

E: Obviamente, principalmente o Brasileiro, e em especial o futebol do Santos Futebol Clube.

B: Qual a sua opinião sobre as várias manifestações contra o mundial (imprensa, ataques a embaixada do brasil…)?

E: Algumas são legítimas, é um direito que deve ser garantido. Embora eu sempre tenha acompanhado todas as copas do mundo e vá acompanhar essa também, nossa realidade é muito desigual, e isso precisa ser combatido. Alguns querem usar este período para tentar dar visibilidade a essas bandeiras. É preciso ser cuidadoso. É ano de eleição, e num contexto tão delicado como é nossa realidade política, é com facilidade que veículos de imprensa conservadores usam algumas manifestações em prol de interesses próprios que nada tem a ver com a luta por um país melhor para o povo. Sou dos que há 15 anos estava no front e, ao passar a copa e as eleições, também estarei. Então fora desse período é que veremos quem deseja realmente uma mudança pra melhor para o povo dentro dessa história. Chega a ser irónico jornais e revistas que combatem diretamente direitos trabalhistas merecidos e justos como o das empregadas domésticas – alcançados há pouco tempo – fingirem estar chocados com o desrespeito aos trabalhadores neste período. É complexo. Entender o Brasil não é para amadores.

Concerto Emicida: Sexta-feira, dia 4 de julho de 2014, às 20h00.

Haus der Kulturen der Welt

John-Foster-Dulles-Allee 10

10557 Berlin

Entrevista realizada por Fabiana Bravo 

 

  

 
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Fabiana Bravo

Nasceu na ilha Terceira, Açores, em 1987. Licenciada em Ciências da Comunicação pela Universidade Técnica e Mestre em Novos Media e Práticas Web pela Universidade Nova de Lisboa, vive e trabalha em Berlim desde maio de 2014.

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