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O “Desfado” de Ana Moura está de volta a Berlim

Foto: ‎Ana Moura © Isabel Pinto

É daquelas vozes que não nos cansamos de ouvir (Prince e os Rolling Stones pensam o mesmo!). Conhecida por ser uma das mais internacionais fadistas portuguesas e pela sua voz grave, Ana Moura dá um toque especial ao fado.

O seu último trabalho, “Desfado”, apresenta fado tradicional, mas também outros temas onde o fado se cruza com outros universos musicais, como o jazz. A digressão deste disco (produzido por Larry Klein, o produtor de Joni Mitchell e Madeleine Peyroux) teve início a 16 de novembro de 2012, no Teatro José Lúcio da Silva, em Leiria. Depois de ter passado pelos quatro continentes, de ter proporcionado experiências memoráveis e somado prémios e distinções, Ana Moura volta a Berlim para atuar, dia 10 de março, na Haus der Kulturen der Welt. Um concerto para ouvir e sentir.

A Berlinda falou com a artista. Leia, de seguida, a entrevista completa.

 

BERLINDA: Depois de passar por Berlim em 2013 com o “Desfado”, está de volta. O que mudou desde então? Como vai ser este concerto?

ANA MOURA: Com o amadurecimento natural do disco, há sempre mudanças. Neste momento, o concerto não é o mesmo musicalmente, as músicas já estão um pouco diferentes. O repertório que estou a fazer em concerto já é um pouco misturado também com temas dos álbuns anteriores, mas com arranjos diferentes, uma vez que tenho mais dois instrumentos (bateria e teclados) que não tinha anteriormente. Serei acompanhada por uma bateria (que tem o bombo tradicional português e outras particularidades que permitem viajar ritmicamente por várias regiões do pais), o baixo acústico, a viola do fado, a nossa guitarra portuguesa e os teclados.

B: O “Desfado” é um trabalho que conta com a participação de nomes conhecidos da nova geração de compositores portugueses e também com músicos já desde há muito conhecidos do grande público. É para si um prazer juntar talentos?

AM: Sim, eu acho que os portugueses na música juntam-se pouco. Nós vemos países, como por exemplo o Brasil, onde os cantores/músicos juntam-se imenso e eu gosto disso. Houve uma altura em que se fazia isso nas casas de fado. Acho que faz falta juntarmo-nos mais. Neste momento, em Portugal, temos grandes interpretes mas também grandes músicos, compositores, letristas…eu queria mesmo fazer isto no “Desfado”, ou seja, juntar pessoas que admiro e que sigo o trabalho. Há muita gente a fazer muita coisa boa, mesmo que não seja diretamente na área do fado. Os letristas, por exemplo, escrevem de uma forma muito portuguesa mas também atual e eu acho muito bonito e interessante e quis trazer isso ao fado.

B: Estes mais de dois anos de “Desfado”, mais de 100 mil unidades vendidas em todo o mundo, a quadrupla platina em Portugal, etc. confirmam que é uma das artistas portuguesas contemporâneas com maior projeção internacional. Como se sente perante este impacto?

AM: Sinto-me feliz. Por exemplo, recentemente li num jornal um texto de um jornalista inglês que não conhecia fado e que estava a ouvir rádio e passou a minha música e ele quis conhecer o disco todo e aprender a falar português. Este género de episódios deixam-me feliz e acabam por me fazer sentir como embaixadora de uma cultura portuguesa. Sinto-me bem por saber que consigo contribuir para uma cultura tão particular quanto a nossa.

B: Em outubro, “Desfado” foi distinguido, nos Prémios Amália Rodrigues 2014, com o prémio “Melhor Disco” e já havia sido distinguida com um Prémio Amália de “Melhor Intérprete”, em 2008, pelo disco “Para Além da Saudade”. Estes são apenas alguns dos prémios e distinções que contabiliza ao longo da sua carreira. É esta a maior recompensa para si?

AM: A maior recompensa é aquele momento com o público, no final dos concertos, na altura em que se vai assinar os autógrafos. É nessa altura que eu ouço histórias diversas e incríveis, algumas menos boas também… nesse momento sinto-me mesmo realizada. Ouço histórias de pessoas que me dizem que a minha música ajudou-as a ultrapassar uma fase menos boa da vida… são histórias fantásticas. É ai que sinto uma satisfação plena (e obviamente que a música é aquilo que me faz sentir preenchida), mas depois sentir que a minha música chega às outras pessoas e que consegue mudar a vida delas…isso é a maior recompensa.

B: O que significa para si atuar para um público que muitas vezes não compreende as letras por serem em português…? Acha que a música está muito mais próxima do verbo sentir do que do perceber?

AM: É isso mesmo. Essa é uma frase espetacular que vou começar a adotar. Eu por outras palavras, tento sempre explicar isso. Há coisas na vida que não são para ser percebidas, são para ser sentidas e a minha música é um exemplo disso. O que é facto é que, por toda a parte por onde tenho andado (fora de Portugal), tenho público local (estrangeiros) e eles não entendem a letra mas a mensagem é transmitida… eles sentem. Dizem que eu lhes desperto emoções e é isso que se pretende.

B: Tendo em conta a situação do país e a quantidade de pessoas que emigraram, sente que estes portugueses, quando a ouvem fora de Portugal, matam saudades do país?

AM: Sim, eu vejo mesmo que as pessoas sentem imensas saudades e que ali ficam felizes… por ouvir o fado e a sonoridade da guitarra portuguesa, e isso fá-los viajar para um momento que muito os marcou. Isso sente-se.

B: Publicou na sua página de facebook um post em que diz que “Berlim é daqueles sítios onde sabe sempre bem ir, ir e voltar a ir”. Porquê?

AM: Berlim é uma cidade muito rica em termos culturais. Há sempre tanta coisa a acontecer e esse género de cidades atrai-me imenso. Fico sempre com pena quando vou por poucos dias porque tento sempre aproveitar um bocadinho das cidades e esta oferece-nos sempre tanta coisa e eu adoro isso.

B: Planos para o futuro? Para quando podemos esperar um novo trabalho com a sua assinatura?

AM: Estou ansiosa para gravar o novo disco. Vou entrar em estúdio no início deste verão. Não sei exatamente quando é que o novo disto será lançado, mas talvez no final deste ano. Ainda não posso levantar o véu sobre o que vou fazer, mas estou feliz porque já está marcada a gravação do disco e é algo que quero muito fazer.

 

Ana Moura em Berlim

Terça-feira, 10 de março de 2015, às 20h00

Haus der Kulturen der Welt

John-Foster-Dulles-Allee 10

10557 Berlim

 

  

 
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Fabiana Bravo

Nasceu na ilha Terceira, Açores, em 1987. Licenciada em Ciências da Comunicação pela Universidade Técnica e Mestre em Novos Media e Práticas Web pela Universidade Nova de Lisboa, vive e trabalha em Berlim desde maio de 2014.

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