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“Warrior Nun”, Shooting Stars, Berlim e outros filmes I Alba Baptista em entrevista

30/03/2021

Imagem: ©European Shooting Stars

Seleccionada para o programa “European Shooting Stars” da 71. Berlinale, rampa de lançamento de novos talentos do mundo da representação, Alba Baptista continua a marcar pontos na sua carreira internacional. Um ano após Joana Ribeiro ter estado na ribalta no mesmo certame, Alba Baptista confirma que os novos nomes da representação portugueses se fazem notar lá fora. “Warrior Nun”, a série da Netflix que protagoniza e que teve uma segunda temporada anunciada recentemente, tornou-a conhecida um pouco por todo o mundo. “Não sou apenas isso”, garante-nos a actriz luso-brasileira – e nós ficamos à espera de ver mais do seu trabalho. No dia da apresentação dos 10 talentos europeus à imprensa, 24 de Fevereiro de 2021, Alba Baptista conversou com o PT Post e a Berlinda sobre os seus vários projectos, numa entrevista através da internet, novo modus operandi dos tempos que vivemos.

 

Vamos começar com a pergunta da praxe: o que conheces da Alemanha? És filha de mãe portuguesa nascida na Alemanha e estudaste na Escola Alemã em Lisboa…

 

Alba Baptista: Eu vou ser honesta, não conheço assim tanto a Alemanha. Já lá fui obviamente, estive em Berlim, Hamburgo e Colónia. Mas o que eu conheço é mais o ambiente de estar com os meus amigos… (risos). Tenho que voltar lá em breve. Aliás, eu gostava de passar lá uma temporada, um mês ou mais, só para reconectar.

 

Tens vários amigos na Alemanha, e família?

 

AB: Tenho amigos espalhados pela Alemanha. Família não.

 

Também tens raízes brasileiras, que ligação tens com o Brasil?

 

AB: O meu pai é brasileiro, mas eu, como sou a filha mais nova, já não nasci lá. Mas nós a cada dois anos viajávamos para o Brasil e ficávamos uma temporada. Tenho uma boa conexão, acho eu. Obviamente que gostava de ter mais, mas isso vou criando com os anos. A minha família é do Rio, tenho vários familiares que vivem lá, e adoro. Tenho uma grande admiração pelo país e pela cidade.

 

Tens ideia da repercussão do teu sucesso no Brasil? As pessoas conhecem a “Warrior Nun”?

 

AB: Eu sei que o Brasil foi um dos países onde a série foi mais vista. Houve um feedback muito positivo e fiquei super-contente. Na verdade, o feedback que recebi dos brasileiros foi mais aberto do que o que recebi dos Portugueses. Somos mais retraídos culturalmente… (risos)

 

Faz sentido, os portugueses são assim, já sabemos...

 

AB: Exacto. (risos) Então foi bonito ver esse lado mais transparente e de amor pela série. Fiquei grata. Sinto que em Portugal, apesar de haver muito apoio, as pessoas são, lá está, mais retraídas.

Neste momento estás super lançada nos EUA, mas já consideraste explorar possibilidades de carreira também pelo Brasil?

 

AB: Sim, já pensei muito nisso. Acho que um dia terei que trabalhar lá, porque seria errado se não o fizesse! (risos) Eu lembro-me que me falavam na altura quando eu estava a fazer novelas aqui em Portugal para eu ir para o Brasil e fazer novelas lá, mas nunca tive o feeling. Mas sem dúvida que adorava explorar o cinema lá, acho que eles têm uma assinatura fantástica, e eu quero explorar isso. Estou a projectar isso.

 

Fazes muitas referências à série nas redes sociais, achas que as pessoas ainda te reconhecem muito como a Ava?

 

AB: Sim, naturalmente… bom, eu só tenho o instagram e sim, os seguidores que tenho lá vieram pela “Warrior Nun”, não foi por mais nada. No entanto, não faço questão de publicar sempre coisas da “Warrior Nun”, porque não sou apenas isso. Claro que alguns fãs vão perder interesse porque só querem ver fotos de cenas dos bastidores, ou isto ou aquilo… Mas não me faz confusão, acho que é normal as pessoas me estarem a categorizar ainda por esse papel. Mas as que ficarem e continuarem a acompanhar o meu trabalho vão começar a conhecer mais. E eu fico grata por qualquer uma das coisas.

 

“Warrior Nun” foi uma grande escola para ti, por seres a protagonista, pela língua, que não é a tua língua materna, pela parte física... O que é que aprendeste mais com a série enquanto actriz?

 

AB: Eu acho que o que mais aprendi e mais me surpreendeu foi sentir que conseguia ser uma líder, que era uma coisa que nunca tinha ainda sentido em Portugal. Já tinha tido papéis de protagonista, mas nunca apanhava bem a imagem global do projecto. Aqui, de repente, como é um processo muito americano, é tudo muito negociado, digamos, agora vamos fazer isto, isto e isto, temos que chegar a isto… enfim, é tudo muito racional e eu gostei disso. Não sei se tem a ver com a minha educação alemã, que gosto de tudo tim-tim por tim-tim… (risos)

 

Talvez tenha a ver, sim…

 

AB: Apesar de eu ser super emocional!... (risos)

 

Tens os dois lados, isso é o bom da mistura!…

 

AB: É verdade. Eu na minha vida pessoal sou uma flor de estufa, mas depois no trabalho gosto das coisas ditas como elas são. E eles não me davam descontos por nada. Os executivos da Netflix foram assistir às gravações na primeira semana e disseram-me cara a cara que, se eu não estivesse ao nível que eles estavam à espera, escolhiam outra pessoa, ainda ia a tempo... Esse é o tipo de pressão de que eu estou a falar. Disseram-me que tinha que elevar a fasquia, e eu pensei: ok, vou elevar a fasquia. Não só isso, obviamente foi uma batalha enorme equilibrar a parte psicológica com a física, e também lidar com uma equipa inteira, que se tornou família. O show-runner disse-me uma vez ‘ A partir de hoje, já não sou só eu o patrão, tu és a patroa no teu departamento. Porque os actores que estiverem no set de filmagens, se virem que estás confiante e confortável, também vão querer estar confiantes e confortáveis e explorar mais. Esta é a tua tarefa: criar união dentro da equipa’. Foi isso que eu mais aprendi, a importância da união, não só com o departamento criativo, mas com o técnico. É essencial.

Olhando para trás, a Alba que fez o casting para o “Miami” aos 16 anos e a Alba de agora… o que é que achas que mudou entretanto?

 

AB: Bem, eu não fazia a mínima do que iria acontecer. Eu sei que foi o Simão Cayatte que me introduziu a esta indústria, de uma maneira super sensível e íntima, e foi isso que me fez apaixonar pela representação. Lembro-me perfeitamente de tudo dessa altura e da minha perspectiva em relação a isto, que era absolutamente ingénua (risos). Gosto de pensar que ainda tenho uma perspectiva ingénua a esta indústria, não sei se faz parte da minha personalidade ou não... Mas na altura realmente não tinha noção de nada, e digo isto no bom sentido, porque acho que me protegeu durante muitos anos. Porque apesar de já ser adolescente na altura, acho que 16 anos é uma idade muito tenra para entrar no mundo da representação, especialmente em filmes mais densos e psicológicos. Porque ainda estamos na nossa autodescoberta e a tentar a explorar, dentro do prisma do que é um adolescente. Sinto que fui introduzida a um mundo muito adulto, e aceitei-o com facilidade, porque tinha a mania de crescer mais rápido, mas não tinha a noção da ingenuidade que levava comigo.

Não via as coisas com clareza, não tinha noção do que era uma câmara, em que perspectiva estar, achava que era só sentir. (risos) Hoje em dia já tenho uma noção mais ampla. Claro que é sentir, mas também tenho que dar um pouco para o director de fotografia, seguir as direcções disto e daquilo... Eu não fazia ideia de onde é que eu iria estar e o que é que eu queria... sabia que queria ser criativa e continuar a explorar isso.

 

E aqui estás agora, a trabalhar em vários projectos. Podes falar-nos um bocadinho dos filmes que tens em mãos neste momento?

 

AB: Sim, “L’Enfant” é uma co-produção francesa, produzida pelo Paulo Branco. É um filme lindíssimo, passa-se no século XVI e vai ser trágico. É uma boa tragédia (risos). O “Mrs Harris Goes to Paris” [de Anthony Fabian] é o meu primeiro filme internacional europeu com actores assim mais conhecidos. A história é lindíssima, é a adaptação de um livro dos anos 50 que trata sobre a vida de uma mulher de classe-baixa de Inglaterra que viaja para Paris para comprar o seu vestido de sonho da Dior. É uma leve comédia/ drama. A minha personagem é o modelo da Dior da altura, que batalha com a questão da fama e tudo mais. Acho que vai ser um projecto super estético e um vai ser um bom escape vermos no cinema, espero eu.

 

Para terminar, lembrei-me da curta que fizeste com o Justin Amorim, “Change”, um exercício bastante experimental sob o tema da mudança, muito adaptado a estes tempos estranhos que vivemos actualmente. Tens algum pensamento que gostasses de deixar aos leitores sobre este tema?

 

AB: Eu não sei, não sou nenhuma sábia ou um guru, mas acho que melhores tempos virão, sem dúvida. É confiarmos na união dos nossos entes queridos e também do mundo.

E simplesmente aproveitarmos este tempo para criarmos mais auto-consciência colectiva e talvez isso nos traga alguma paz.

 

Rita Guerreiro

Licenciada em Audiovisual e Multimedia pela ESCS – Escola Superior de Comunicação Social (Lisboa), chegou a Berlim em 2010. Depois de ter participado em vários projectos de voluntariado e iniciado o Shortcutz Berlim, juntou-se à nova equipa Berlinda em 2016 e é desde então editora do magazine, para o qual contribui com vários artigos e entrevistas. 

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