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Ilda Santiago: «Toda a curadoria é um exercício de olhar pessoal e de aproximação com o público. Faz parte do que é arte» | Entrevista

Foto: Première Brasil – cartaz | © Haus der Kulturen der Welt

O Première Brasil apresenta, há seis anos, uma seleção criteriosa daquilo que de melhor o Brasil produz na cultura cinematográfica. É, ao mesmo tempo, a secção homónima do Festival do Rio, o qual Ilda Santiago dirige. Este último tornou-se uma inquestionável referência para o cinema brasileiro, não só por constituir uma rampa de lançamento de filmes, mesmo antes de entrarem em cartaz no Brasil, mas também por representar um lugar onde os programadores do mundo podem observar o que está a ser feito em território brasileiro. Foi a partir dessa experiência que surgiu a ideia de criar uma série de cinema que pudesse levar a produção cinematográfica brasileira onde, potencialmente, haveria público interessado. O Première Brasil passou por lugares tão distintos quanto o Museu de Arte Moderna de Nova Iorque (MoMA), Centro Cultural de Belém, em Lisboa, e está, desde 2009, na Haus der Kulturen der Welt, em Berlim.

A Berlinda entrevistou a curadora, Ilda Santiago, a cinco dias do início do Première Brasil, uma das maiores e mais importantes manifestações culturais brasileiras em Berlim.

Qual a maior dificuldade que encontrou, ou tem encontrado, na organização do Première Brasil?

A maior dificuldade – ou desafio – tem sido achar o parceiro correto e a partir dele construir uma ideia do cinema brasileiro ao longo dos anos. Berlim é onde menos dificuldades encontramos, porque é uma cidade naturalmente curiosa. Você tem públicos para todos os eventos culturais, e muito acostumado a receber cultura do mundo todo. É uma cidade muito calorosa. A Haus der Kulturen der Welt sempre foi um parceiro de muito peso e sensível, porque a curadoria é feita entre mim e a Doris [Hegner, cabeça do festival]. Na verdade a palavra não é bem dificuldade, mas muitos desafios interessantes, que você assume junto com o parceiro e com o público também.

O Première Brasil traduz, através do cinema, a realidade brasileira atual. São os berlinenses ou os próprios brasileiros quem mais se interessa por isso?

Eu acho que os dois, mas obviamente por motivos diferentes e com olhares diferentes.  O olhar do brasileiro, sem querer generalizar, é o de quem está fora do Brasil há muito tempo e, portanto, quer entender melhor o que está acontecendo no Brasil – e muitas vezes tem uma ideia completamente ultrapassada. Os berlinenses são diferentes: ou é a descoberta de um país ou é simplesmente matar saudade de um país que já conhecem. Acho que é exatamente essa mistura que cria uma energia interessante. Toda o mundo vai para entender melhor o país a partir daquelas imagens.

O Première Brasil é mais um espelho das escolhas da Ilda Santiago ou dos gostos dos berlinenses?

Essa é a pergunta que me faço todos os anos no Festival do Rio. Acho que é o meio do caminho. É impossível dizer que não tem o meu gosto pessoal na escolha dos filmes que vão estar no Festival do Rio na  secção Première Brasil. É um recorte do que eu acredito ser o que o Brasil produz de melhor e onde existem talentos e linguagens que vão despontar nos próximos anos. Você escolhe a partir de um gosto, mas você quer chegar no outro. Tem filmes que são apostas e tem filmes que a gente vai claramente para seduzir. Acho que toda a curadoria é um exercício de olhar pessoal e de uma aproximação com o público, faz parte do que é arte. Tem um exercício de uma expressão do que você acredita ser bom, mas também daquilo que você acha que pode funcionar para o público.

Neste e noutros anos, o Première Brasil prima por ser uma chamada de atenção aos problemas estruturais da sociedade brasileira. É uma mera coincidência que isto aconteça no mesmo ano em que há eleições presidenciais no Brasil?

Acho que é inerente ao cinema a ideia de falar daquilo que é um país. Você acaba por ter um olhar pessoal, não diria político, porque qualquer filme o é. Mas você acaba traçando um retrato político do país. A Première Brasil não é um espelho disso, mas antes um espelho do que é produzido no Brasil. São produzidas no Brasil muitas coisas que têm a ver com o viés social e político do que acontece, mas são produzidas muitas comédias. Filmes que teriam menos esse perfil. A Première Brasil de Berlim é de longe o lugar com mais debate, é o lugar onde todo o mundo fica depois da sessão para debater com o diretor. Acho que [as eleições presidenciais do Brasil] não têm qualquer relação específica.

Além do valor artístico inalienável que o cinema tem, diria que uma das suas mais-valias é a sua capacidade de sensibilização social?

Hoje, se você não tem a sua história contada no cinema, como povo, como sociedade, como grupo, você praticamente não existe. O cinema tem essa capacidade de sensibilização, mas é de um reconhecimento, de nós mesmos e do outro. O cinema é esse meio do caminho, quem eu sou e quem é o outro. E eu acho que a cultura é a única possibilidade de fazer relações internacionais da forma correta. As relações político-económicas são obviamente permeadas pela cultura. E quanto mais a gente entende o outro, mais estas relações são capazes de acontecer dentro de um ambiente mais humano, mais harmônico.

Diga três motivos pelos quais o público tem de ir ao Première Brasil Berlin 2014?

O primeiro grande motivo é que os filmes são muito bons. O segundo grande motivo é que eu acho que o Brasil é um país muito interessante. Gosto da ideia de que um público maior entenda o país. A Première é uma tentativa de nos tornar mais familiares uns aos outros. O terceiro motivo é que a Haus der Kulturen der Welt é um lugar absolutamente lindo. É muito bom reunir bom cinema com um lugar prazeroso.

 

Já tem ideias para o festival do próximo ano?

Tenho, sim, mas não posso ainda dizer. Existem algumas ideias que a gente vem pensando e desenvolvendo junto com a Haus der Kulturen der Welt, que têm a ver com os próprios filmes da Première, mas também com a noção de como a gente conecta ainda mais a Première Brasil, a história da Haus der Kulturen der Welt e também a história do Brasil. Eu sou uma grande batalhadora pela língua portuguesa e acho que o Brasil tem uma grande função, pelo tamanho do país e número de falantes. Existem muitas ideias para os próximos anos, mas eu estou muito curiosa para saber como o público vai reagir a esses filmes que a gente vai mostrar esse ano.


PREMIÈRE BRASIL

Entre 29 de outubro e 9 de novembro de 2014
Haus der Kulturen der Welt
John-Foster-Dulles-Allee 10
10557 Berlim

 

 

  

 
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Diogo Vital

Nasceu no Porto, Portugal, em 1990. Licenciou-se em Línguas, Literaturas e Culturas (Inglês e Alemão) pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Encontra-se no segundo ano do Mestrado de Ciências da Comunicação, pela mesma Faculdade. Vive e trabalha em Berlim desde setembro de 2014.

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