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Desconstruir o Fado: o desfado de Ana Moura

Foto: ‎Ana Moura © Promo

 

Prince convida-a regularmente para jam sessions privadas, já levou os Rollings Stones aos fados e não tem medo de misturar o fado com o jazz. No último disco, que conta com colaborações com artistas desde Pedro Abrunhosa a Herbie Hancock, e que foi produzido por Larry Klein (o produtor de Joni Mitchell e Madeleine Peyroux), move-se na corda bamba da mistura de géneros - e sai-se brilhantemente. Ana Moura, uma das mais internacionais fadistas portuguesas, vem a Berlim apresentar o seu último disco “Desfado”. O magazine BERLINDA falou com ela.

 

BERLINDA: O seu novo trabalho chama-se “Desfado”. Quer desfazer o fado?

ANA MOURA: Desfazer, não. Mas este disco tem algumas músicas onde se desconstrói o fado. O prefixo vem de desconstrução. Este disco tem fado tradicional mas também tem outros temas onde o fado se cruza com outros universos musicais, como o Jazz, e também com alguns instrumentos tradicionais portugueses, como o bombo tradicional do norte, e nesse sentido o fado é de facto um bocadinho desconstruído.

 

B: Este disco tem uma enorme lista de colaborações com outros músicos de diferentes estilos, como Pedro Abrunhosa, António Zambujo, Aldina Duarte, Pedro da Silva Martins (dos Deolinda), até mesmo Herbie Hancock, e é cantado em português e em inglês. No meio de tanta influência diferente, qual é o seu cunho pessoal? Consegue encontrar o fio à meada?

 

AM: Eu acho que a minha voz, aliás a minha interpretação, acaba por fazer a ligação entre a personalidade de todos os compositores. Penso que consegui, através da minha interpretação, e essencialmente da minha alma, fazer o link entre todos eles – o que realmente é difícil, eles têm uma personalidade muito distinta entre si e eu sou admiradora de todos. Quis muito propor-lhes este desafio, eles aceitaram e foi muito bom para mim, inclusivamente por isso mesmo que me perguntou: por perceber que, independentemente de quem compôs, o disco consegue ter uma linguagem única do início ao fim.

 

B: Não tem medo das críticas dos puristas?

 

AM: Não me preocupo muito com isso. Eu não defendo este disco como um disco inteiramente de fado. É antes o culminar de um desejo de querer refletir aquilo que os últimos anos da minha carreira têm sido, ou seja, tenho tido colaborações com músicos de áreas distantes do fado, mas que de repente se apaixonam pelo fado e querem juntar o seu universo musical a este universo do fado. Acho que não estou a ofender ninguém, simplesmente estou a seguir o caminho que fazia parte da minha carreira. Por isso tudo, acho que fazia muito sentido este disco neste momento na minha vida, e estou apenas a respeitar o meu desejo e o meu próprio percurso, independentemente de ser fadista.

 

B: Entre os músicos com quem tem trabalhado e que se têm apaixonado pelo fado estão dois nomes muito sonantes: os Rolling Stones e o Prince. Como é que esses encontros aconteceram?

 

AM: Foram experiências diferentes. Com os Stones, tudo começou com um projeto chamado “The Stones Project”, produzido pelo saxofonista dos Rollings Stones, e onde os quatro míticos – Mick Jagger, Charlie Watts, Keith Richards e Ronnie Woods – todos eles tocam um instrumento com os vários artistas que participam no projeto. Foram convidados muitos artistas de diferentes áreas da música, como a Norah Jones e a Sheryl Crow, que cantam músicas dos Rolling Stones com o seu próprio estilo. Eles convidaram-me para participar no projeto, e quando vieram cantar a Portugal convidaram-me – muito espontaneamente! - para cantar com eles no Estádio de Alvalade. Também me pediram para os levar a uma casa tradicional de fados, e foi um momento mesmo muito bonito, veio o staff todos dos Stones, o Mick Jagger não largou a sua câmara de filmar, eu cantei, foi um momento muito bonito.  Com o Prince foi uma experiência diferente, ele conhecia a minha música e os meus discos e queria assistir um concerto ao vivo meu. Contactou os meus agentes e escolheu para me conhecer um concerto que eu fiz em Paris, numa sala muito bonita que é o “La Cigale”. Ele veio, conhecemo-nos, e a partir daí estabelecemos uma relação de amizade. Mais tarde quando ele veio a Portugal, convidou-me para cantar com ele no Festival Super Bock Super Rock, e entretanto volta e meia quando faz umas jam sessions com os amigos, lá me convida... essas parcerias com músicos de outras áreas têm realmente despertado em mim uma curiosidade enorme de fazer coisas diferentes, explorar a música em várias vertentes, e daí também a vontade de fazer este disco.

 

B: Tem uma carreira internacional bombástica, que começou em 2003. Passados 10 anos, já percorreu o mundo inteiro. Como se sente sabendo que é uma embaixadora da música portuguesa, e que contribui para levar esta música a pessoas que talvez nunca tivessem ouvido falar dela, como por exemplo o Prince e os Rolling Stones?

 

AM: Sinto-me muito, muito feliz, por vezes também surpreendida. Realmente, em todo o mundo há cada vez um interesse maior por esta música. Tenho obviamente um sentido de responsabilidade acrescido por cantar um género que reflete a nossa personalidade e a nossa cultura. Mas sinto-me muito feliz porque em toda a parte o apreço das pessoas pela nossa cultura é cada vez maior. É sempre surpreendente ver as casas cheias e ver toda esta procura e esta entrega.

 

B: Quais são as suas impressões de Berlim? Já tem cá vindo antes...

 

AM: Sim, já tinha estado antes na cidade.  Berlim é muito bonita, arquitetonicamente, e é uma cidade com muita história. Gosto particularmente de Berlim por ser um centro cultural enorme. As pessoas que vivem em Berlim são umas privilegiadas por poderem usufruir dessa vida, dessa oferta cultural. Está sempre a acontecer qualquer coisa, é uma cidade com muita vida, muito alegre. Isso encanta-me muito.

 

B: No meio de tanta internacionalização, de tantos sucessos, consegue ainda manter uma vida normal, ou a sua vida é o fado?

 

AM: A minha vida é a música, o fado, as viagens. Nos últimos meses temos andado com uma vida louca, cheia de viagens, concertos, viagens para promoções... a minha vida nos últimos anos é na estrada, são os concertos, hotéis, aviões...

 

B: Mas gosta?

 

AM: O balanço é sempre positivo. Nem toda  agente tem o privilégio de fazer aquilo que gosta, eu tenho-o e estou grata perante a vida por assim ser. E por enquanto, ainda gosto! Por vezes sinto-me cansada, mas tudo somado gosto muito.

 

B: Quais são os seus projetos para o futuro?

 

AM: Para já, apresentar este trabalho. A tournée já começou, estive em Portugal a percorrer todo o país, agora segue-se o norte da Europa, depois espera-me mês e meio nos Estados Unidos. O meu projeto é realmente apresentar o “Desfado” ao público que me tem seguido, e ao outro que se poderá unir a mim nesta nova aventura. Espero que as pessoas o acarinhem e se identifiquem com ele.

 

Entrevista conduzida por Inês Thomas Almeida

 

  

 
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Ines Thomas Almeida

Inês Thomas Almeida nasceu na República Dominicana e cresceu em Portugal como bilingue e com dupla nacionalidade. Mudou-se para a Alemanha para estudar Canto na Escola Superior de Música e de Teatro de Rostock. Alguns anos depois de se instalar em Berlim, criou o magazine online Berlinda, e, mais tarde, o Festival Berlinda.

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