Victoria Guerra, a Shooting Star portuguesa na Berlinale – entrevista

Victoria Guerra foi a representação portuguesa deste ano nas Shooting Stars da Berlinale. Através do ICA – Instituto do Cinema e Audiovisual, Victoria Guerra trouxe de novo o nome de Portugal à ribalta, após mais de 6 anos sem actores portugueses seleccionados.
A iniciativa, que celebrou 20 anos de edição, tem como objectivo encontrar “os jovens actores mais promissores da Europa”, segundo o presidente da EFP – European Film Promotion, Martin Schweiger. “O cinema europeu é maior que a soma das suas partes”, referiu. Relembrou também que algumas das mais famosas estrelas de cinema passaram um dia pelas Shooting Stars: Daniel Craig, Rachel Weisz, Alicia Vikander ou Daniel Bühl são apenas alguns exemplos.
“A maioria dos actores seleccionados não teria a oportunidade de mostrar o seu trabalho, nem acesso a uma plataforma deste tipo no seu país de origem”, referiu Lucinda Syson, que esteve presente no evento. “A coisa mais importante é o talento”, referiu o jury Xavier Koller, também presente. O jury deste ano contou também com um nome português – Pandora da Cunha Telles juntou-se a Dorka Gryllus (Hungria), Lucinda Syson (Reino Unido), Xaviel Koller (Suiça) e Jan Lumholdt (Suécia) para eleger as 10 Shooting Stars a destacar nesta edição da Berlinale. 
Victoria Guerra é conhecida do público português pelos seus trabalhos em televisão, nomeadamente “Morangos com Açúcar” ou “Sol de Inverno”, e também pela sua participação no cinema em filmes como “As Linhas de Wellington”, de Valeria Sarmiento, “Cosmos”, de Andrzej Zulawski ou “Amor Impossível”, de António-Pedro Vasconcelos (com qual ganhou o Globo de Ouro para melhor actriz de cinema em Maio do ano passado). Gravou “Wilde Wedding”, realizado por Damian Harris, onde contracena com John Malkovich, e mais recentemente “Aparição”, de Fernando Vendrell, uma adaptação cinematográfica do Romance homónimo de Virgílio Ferreira.
A Berlinda esteve na apresentação das Shooting Stars à imprensa e teve a oportunidade de entrevistar a jovem actriz portuguesa numa mesa-redonda juntamente com o C7nema.net. A actriz, que terminou de gravar “Aparição” de Fernando Vendrell em Dezembro do ano passado, falou-nos de forma descontraída e aberta sobre a sua experiência na Berlinale. No final, prometeu voltar à capital alemã para a conhecer melhor, “Nem Berlim vi, quero voltar cá no Verão. E quero voltar para conhecer melhor o festival também”. 

 

 

  • A actriz portuguesa Victoria Guerra. Copyright ®Ralf Uhler, EFP Shooting Stars
  • As 10 Shooting Stars na apresentação à imprensa no Audi Lounge. Copyright ® Berlinda.org
  • Victoria Guerra na noite de entrega dos prémios. Copyright ®Ralf Uhler, EFP Shooting Stars

 

Como está a ser a experiência Shooting Stars, tens conhecido muitas pessoas?
Está a ser muito divertida! É muito cansativo, temos um horário de doidos, com imensas entrevistas. Há um grande foco em cima destas 10 Shooting Stars, as pessoas querem mesmo conhecer-te. Ontem tivemos uma reunião de 3 horas com dezenas de diretores de casting e agentes do mundo inteiro. Sabiam quem éramos e queriam os nossos contactos. Todas essas coisas são muito boas porque em Portugal não temos acesso a diretores de casting. E são eles que escolhem, e que estão sempre à procura de caras novas para fazer filmes, e às vezes estão mesmo à procura de pessoas estrangeiras, com particularidades diferentes para certos papéis.
Podes falar-nos um pouco sobre a forma como escolhes os trabalhos que fazes em televisão e cinema?
Eu procuro trabalhar com pessoas diferentes e aprender cada vez mais. No caso da televisão, que é o que tenho feito mais, procuro fazer personagens muito diferentes. Agora por exemplo estou a fazer uma personagem que é esquizofrénica na novela. É espectacular e foi por isso que aceitei esta novela. No cinema, tem também a ver com as personagens, os realizadores, a história e os actores também. Não muda muito de televisão e cinema.
Qual o realizador com quem mais gostaste de trabalhar até à data?
Andrzej Zulawski (no filme Cosmos), de longe. Porque era um génio, um mestre. Ainda hoje quando me lembro que trabalhei com ele arrepio-me. Foi uma grande experiência porque ele tinha uma forma muito manipuladora de trabalhar com os atores, mas  sem ser mau. Fora o elenco que, para além de serem dos melhores atores franceses, são das melhores pessoas com quem já trabalhei na minha vida. Aprendi muito e conseguiu tirar coisas de mim que eu não tinha noção de que era capaz.
Qual achas que é a maior diferença entre cinema e televisão?
O tempo. Em televisão podemos gravar 30 minutos por dia. No cinema filmamos uma cena por dia, o ritmo é mais lento. Há mais tempo, há outra preocupação.
Portugal tem 4 curtas em competição este ano na Berlinale Shorts, sendo a Alemanha o único país com mais entradas nesta secção. Tu começaste nas curtas, podes contar que ensinamentos trouxeste dessas experiências para o cinema?
Nós olhamos para as curtas como uma coisa menor, não é. É uma oportunidade fantástica. O que é que acontece, é basicamente isto: boas personagens, boa história, eu vou querer fazer. O que eu sinto nas curtas é que, como são muitas vezes feitas com pouco dinheiro, as pessoas que estão envolvidas vão dar tudo o que têm, porque querem muito fazer aquilo. E depois é uma aprendizagem, podemos arriscar de outra maneira. Eu acho que as curtas são fantásticas nesse sentido, aliás há muitos realizadores que trabalham em longas e continuam também a fazer curtas.
Os teus planos como actriz passam por continuar a apostar na carreira em Portugal, ou consideras mais interessante ir para fora?
Tudo o que fiz, não precisei de sair de Portugal. Cada vez mais os realizadores vêm filmar em Portugal, por questões de budget, de tempo. Eu quero trabalhar. Faço muitos self-tapes e tenho também um agente nos EUA.
Gostarias de deixar algum conselho à nova geração de actores para conseguirem ter sucesso neste meio?
Tenham muita paciência, tentem aprender com tudo – até experiências más servem para aprender. Se gostarem mesmo daquilo que fazem, não desistam.

 

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