Imagens renascidas da Guiné-Bissau em “Spell Reel” de Filipa César na Berlinale

Filipa César estreou “Spell Reel” na secção Panorama da Berlinale e explicou muito da História da Guiné-Bissau no seu primeiro documentário. A Berlinda esteve presente na estreia mundial na Delphi Film Haus, que foi acompanhada de uma conversa com a realizadora após a projecção do filme. “Spell Reel” faz parte do projecto “Luta Ca Caba Inda”, que olha para o cinema militante da Guiné-Bissau entre os anos de 1964 e 1980. Filipa César ano esteve aliás presente na edição do ano passado com”Transmission from the Liberated Zones”, e em 2013, com Cuba, ambos baseados no trabalho que tem feito nos arquivos do cinema da Guiné-Bissau. O trabalho de pesquisa durou mais de 5 anos e a parte de digitalização do filme teve a colaboração do Kino Arsenal em Berlim. “O trabalho de arquivo é muito mais do que a preservação de filmes, é descoberta de filmes históricos”, sublinhou Filipa César. O documentário reúne uma série de imagens de arquivo do cinema da Guiné-Bissau e “fragmentos de filmes”, como referiu a artista-realizadora.Talvez por isso o define como “um filme colectivo”. É, assim, um trabalho de reconstrução de memórias e de pesquisa que a Filipa César levou a cabo com ajuda de inúmeras instituições e pessoas de vários países – Guiné-Bissau, Portugal, Alemanha e França.
Muito se perdeu, mas o que ficou renasce agora das cinzas, como é referido a certa altura no documentário: ”Depois da guerra, os filmes ficaram expostos à chuva, ao calor e à humidade, pelo que das cerca de 100 horas de filme que existiam, apenas restam 40”. Muitas delas são apenas partes de filmes, histórias inacabadas e deixadas ao esquecimento do arquivo cinematográfico da Guiné-Bissau. O documentário coloca em foco o trabalho dos “realizadores de guerrilha”, e está repleto de imagens históricas: cenas de guerra, de bombardeamentos, dos quartéis. “Spell Reel” conta com a participação de Flora Gomes e Sana na N’Hada, ambos parte do grupo de estudantes que o governo guineense enviou para Cuba num programa especial para estudar cinema em 1967 e que contactaram directamente com o realizador francês Chris Marker – cuja relevância no cinema da Guiné-Bissau foi também relembrada neste trabalho.

  • Imagem do documentário “Spell Reel” de Filipa César. Copyright ® Filipa César / SPECTRE PRODUCTIONS
  • Imagem do documentário “Spell Reel” de Filipa César. Copyright ® Filipa César / SPECTRE PRODUCTIONS

 

Presente em Berlim juntamente com Filipa César, Sana na N’Hada declarou após a projecção do filme “Estou muito contente de estar aqui com vocês e ver  o renascimento destas imagens”.  A ideia do documentário é também explicar a importância do cinema itinerante, iniciativa que começou nos anos 70 com o objectivo de levar o cinema às populações. Passando de população em população, chegava assim a pessoas de diferentes culturas na Guiné Bissau e permitia que se conhecessem melhor entre si. Sana na N’Hada acrescentou: “no meu país não há electricidade em todo o lado, não há cinema em todo o lado. Os filmes são mostrados através do cinema itinerante”. Actualmente, estas sessões de cinema são feitas com uma nova perspectiva e incluem discussões com as pessoas que assistem aos filmes. Filipa César frisou a importância desta iniciativa: “não é apenas sobre a Guiné, é sobre o programa colonial”.
Filipa César é uma artista multimédia portuguesa que se encontra radicada em Berlim. Estreia-se nas longas-metragens com este documentário forte, detalhado e de redescoberta – um filme sobre o cinema, em que se fala da luta de libertação, do herói nacional e da sua importância na História da Guiné-Bissau.

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