The Gift em Berlim para apresentação do novo álbum “Altar” – Entrevista

Foto ©Copyright:Melt Booking

 

Os The Gift’ vêm a Berlim já no dia 30 de Maio para um concerto no Maschinenhaus – Kulturbrauerei.
A banda de Alcobaça, que conta com uma carreira consagrada e se fez ao mundo, lançou recentemente um novo álbum: “Altar”. Produzido por Brian Eno, compositor e produtor britânico conhecido pelo seu percurso na música rock, electrónica e pop, e projectos como a banda Roxy Music ou trabalhos com David Bowie, U2 ou Coldplay. A aclamação pela crítica internacional não se fez esperar e poderemos ouvir as canções que o compõe ao vivo em Berlim, na terça-feira, dia 30 de Maio, dia em que a banda se apresenta para conquistar o público alemão e alegrar todos os que a seguem há anos. A Berlinda falou com Nuno Gonçalves para saber mais sobre este grande concerto que se aproxima.
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Com 20 anos de carreira, quem são os ‘The Gift’ e o que vos move?
As canções e a reacção que as canções provocam nas pessoas, acho que essa tem de ser a grande motivação dos músicos; eu acredito que a grande força de uma banda são as canções e aquilo que elas transmitem às pessoas que as ouvem e a nós que as tocamos. E ademais, obviamente, o gosto de estar juntos: nós somos uma família unida, uma banda que atravessou muitas montanhas para chegar ao sítio onde está hoje; quando os sacrifícios são muitos, há um lado de união que é mais forte, e no caso dos ‘The Gift’ é muito grande.

 

Como lidam com o facto de serem uma banda sobejamente conhecida em Portugal, com uma carreira extensa, e serem um nome relativamente novo em alguns países – como é o caso da Alemanha?
Humildade. É a única maneira de resolvermos isto; é percebermos que, na música, ainda existem fronteiras, que ainda existem mercados diferenciados. Ontem tocámos para um estádio cheio em Leiria, daqui a dois dias tocaremos para uma sala cheia em Londres e esperemos que, daqui a uma semana, também para uma sala cheia em Berlim. Mas mais do que uma sala cheia ou vazia, o mais importante é que as pessoas venham à procura de um som novo, sobretudo as pessoas locais de Berlim, de Londres, de Brighton, para perceberem que há aqui um novo som, uma nova banda, que há aqui uma força de querer mostrar uma música diferente.

 

Como vivem o cantar em português e em inglês? Como surgiu o cantar o inglês, num momento em que houve uma primeira vaga de bandas a cantar a inglês em Portugal?
Cantamos em inglês porque a grande maioria da música que ouvíamos, tal e qual como hoje, e a verdade é esta, era em inglês. Uma pessoa não pede para gostar de música portuguesa só por gostar e só por querer agradar aos puristas, que cada vez mais existem, em relação à língua. Eu considero que é muito mais português viver em Portugal e inspirar-se por Portugal, não só pela língua, mas por aquilo que Portugal transmite. Eu acho que nós não seríamos quem somos hoje, não soaríamos da mesma maneira, ainda que cantando em inglês, se não fôssemos portugueses; se fôssemos alemães a música dos ‘The Gift’ não soaria da mesma forma. Isso é que é importante. Contudo, há obviamente uma influência directa e indirecta da música que ouvíamos na altura e, quando começámos, a música que mais escutávamos era em inglês e saiu assim. Da mesma forma que em 2006, quando quisemos fazer o ‘Fácil de Entender’ surgiu-me um poema em português e decidimos cantar em português. Não há uma regra que nos diga só isto ou só aquilo.

 

E que referências foram essas? Podes dar exemplos?
Hoje em dia não há ‘AS’ bandas, há movimentos, há canções, a indústria tem uma aura de expansão tão grande que não conseguimos nomear uma banda, mas podemos referir os Radiohead, os Portishead, mais antigamente, os Depeche Mode, os Cure; nós vimos dessa geração que ouvia essas bandas a fazer música diferente e, mesmo assim, a tocá-las para estádios grandes, que é uma coisa que hoje seria impensável. Mais recentemente, achamos que os Arcade Fire têm feito um trabalho notável, como também os LCD Sound System, e os Grizzly Bear, uma banda da qual nós gostamos imenso. E há depois, claro, canções esporádicas, que surgem e que nós achamos que fazem sentido nas nossas.

 

Como nos descreveriam o vosso novo álbum “Altar”?
É de longe o melhor disco dos ‘The Gift’, é o disco mais inspirado, o mais iluminado e o mais luminoso. É um disco com canções fantásticas, excelentemente produzido pelo Brian Eno, que nos trouxe um folgor novo, uma maneira nova de vermos a música, sobretudo no trabalho em estúdio, rematado na parte final por excelentes misturas de Flood. É um disco que nos está a dar um imenso orgulho tocar ao vivo e que achamos que tem tudo a funcionar. Felizmente, está a ser excelentemente recebido por toda a crítica mundial e ficamos muito contentes por isso acontecer. Em Portugal é possivelmente o disco dos ‘The Gift’ que mais tempo se manteve em número um no top de vendas – 4 semanas. Isso significa que as pessoas estão atentas e que não gostam apenas de ouvir o banal.

 

Como foi a experiência de colaborar com Brian Eno no álbum ‘Altar’?
A melhor experiência dos ‘The Gift’ até hoje. Ele é uma pessoa que eleva cada trabalho artístico a um nível superior, trabalhámos de uma maneira muito descontraída, todos virados uns para os outros, sem termos um vidro entre a banda e o estúdio; foi muito pacífico, muito bem disposto, muito divertido. E, claro, partilhámos com o Brian a genialidade dele, ele tem rasgos de inspiração tremendos. Acordar todos  os dias às 8.30h para trabalhar com o Brian Eno é um sonho de criança tornado realidade, é uma experiência que nós nunca tínhamos sonhado. Nós ganhámos muita confiança com o apelo dele, ficámos muito contentes porque, pensámos, se o Brian Eno quer trabalhar connosco, afinal não somos assim tão maus (risos). E houve uma química fantástica: ele não só produziu o álbum, como acabou por ser co-autor de uma série canções connosco – quase todas – e canta, inclusivamente no primeiro single no ‘Love without Violins’. Portanto, melhor é impossível. Podemos dizer que não há muitas bandas no mundo que tinham tido esta parceria, esta regalia de ter o Brian Eno quase como um quinto membro dos ‘The Gift’.

 

Conhecem Berlim? Como vêem / antecipam a cidade? Que público esperam encontrar em Berlim?
A última vez que tocámos aí foi em 2006, aquando do Mundial. Tocámos num sítio onde estavam a transmitir o jogo da Alemanha, creio eu que nos quartos-de-final. Foi uma altura muito interessante da carreira dos ‘The Gift’, dos primeiros passos. Agora é diferente, nós esperamos encontrar uma cidade  evoluída. Nós na altura ficámos muito fascinados com a parte oriental da cidade. Estivemos agora a ver o espaço onde vamos tocar, que tem condições óptimas para fazermos um grande concerto: acho que vai ser um óptimo segundo primeiro passo dos ‘The Gift’ em Berlim; esperemos que a sala fique cheia,  para que se propicie voltarmos até ao final para tocar numa sala maior para mais gente. Aquilo que eu acho que é importante é que toda a gente que gosta dos ‘The Gift’, ou que tem algum apreço pela carreira dos ‘The Gift’, passe a palavra, pouco a pouco. Foi assim que funcionou em Portugal e será maioritariamente assim no estrangeiro. Sobretudo agora, com as redes sociais, o passar a palavra pode atingir muita gente. Antes, na altura em que andávamos no colégio, o passa a palavra era na base de um a um e, agora, o um a um pode ser mil a mil. É necessário haver alguma militância à volta da música dos ‘The Gift’ para que os alemães, os ingleses, os franceses possam ouvir música portuguesa além do fado e da melancolia barroca. Infelizmente a música portuguesa está muito conotada com o fado. Acho que estamos na altura de virar a página e de mostrar que Portugal tem mais luz do que um xaile negro e que tem muito mais dinâmica e muito mais modernidade.

 

O que podemos aguardar do vosso concerto?
Vai ser um concerto baseado neste disco ‘Altar’, obviamente também com uma piscadela de olho a coisas mais atrás da carreira dos ‘The Gift’. Aliás vinte e dois anos de carreira dão  espaço para que nós possamos fazer alinhamentos muito distintos. Vai ser um alinhamento vibrante, com momentos de dança, com momentos de pausa, de reflexão, com momentos de reflexão. Sobretudo vai assentar numa banda muito ensaiada, muito bem experimentada em palco – somos 7 músicos em palco. Na minha óptica pessoal, o grande forte da música dos ‘The Gift é a voz e a presença da Sónia, que está cada vez melhor. Está com um fulgor tremendo e está, como costumo dizer, com o ego no sítio para fazer concertos fantásticos.

 

Há um novo momento para a música portuguesa no panorama internacional? Este ano estiveram em Groningen, Austin, e estão a tocar em novos mercados. Como viveram estes grandes festivais profissionais de música?
Nós achávamos que este novo disco, ‘Altar’, produzido pelo Brian Eno, que é um dos grandes nomes da música mundial, não fazia sentido ficar só em Portugal. Hoje em dia, querer ter uma carreira no estrangeiro, significa que a banda tem de abdicar, durante alguns anos, de muitas regalias que tem em Portugal para investir lá fora. E eu acredito que nem todas as bandas têm vontade de fazer isso porque é muito bonito tocarmos em Berlim, em Gronigen, em Austin, mas alguém tem de pagar essas viagens, a alimentação e os hotéis e, infelizmente, não há apoios institucionais para esses eventos. Volto a lembrar que Portugal tem um apoio constante para cinema, para moda, para vinhos, mas a música ainda é um bocadinho o parente pobre. Mas eu acho que essa tendência tem de mudar obrigatoriamente, porque nós já andamos a dizer há anos que é necessário alterar este panorama. Na altura dos ‘Abba’, por exemplo, música era o segundo produto que a Suécia mais vendia. Portanto, se existissem eventualmente 15 ‘The Gift’, poderia haver um retorno de marketing, de cultura, até de imagem. Para concluir, este disco não podia ficar na fronteira portuguesa, tinha de sair para fora. Nós decidimos investir, decidimos agarrar com unhas e dentes esta oportunidade que temos e aproveitar o grande disco que temos para o mostrarmos a outras pessoas que não só as portuguesas.

 

Tiago Pinto Pais – Natural de Leiria, vive em Berlim há 7 anos. Actual morador do bairro de Kreuzberg, é formado em Gestão pela Universidade Nova de Lisboa. Desde Julho de 2016 é o presidente da associação Berlinda.

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